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Resenha

Resenha | Recursão

Livro propõe uma ivestigação sobre as memórias e como elas moldam a realidade.

Gustavo Carvalho Cardoso

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Recursão foi publicado em 10 de janeiro de 2020 pela editora Intrínseca, escrito pelo autor do best-seller Matéria Escura. Blake Crouch é escritor de ficções cientificas investigativas e suspenses. Sua trilogia de maior sucesso foi Wayward Pines que foi adaptada para uma série de TV com o mesmo nome em 2015. Outro trabalho que virou série foi Good Behavior, que estreou na TV em 2016.

“O tempo não passa de memórias sendo escritas”

A história mostra um fato incontestável: As memórias constroem nossa realidade. O investigador Barry Sutton descobre esse fato ao investigar um fenômeno chamado de Síndrome da Falsa Memória, uma doença misteriosa que enlouquece a mente humana ao plantar memórias de vidas que as vítimas nunca viveram. Na busca pela verdade, o investigador se depara com um oponente mais assustador que a própria doença, uma força tão poderosa que pode mudar a própria realidade do todo. Sua única chance de impedir o caos que se forma está nas mãos da neurocientista Helena Smith, uma mulher assolada pela maldição de sua invenção, a criadora de uma tecnologia que deveria salvar vidas, mas que acabou esfacelando a realidade. Barry e Helena terão de trabalhar juntos se quiserem sobreviver e salvar a todos da ruína.

“Os lugares que deixam mais saudade são aqueles em que nunca estivemos”

Recursão é uma ficção científica excepcional, com mistérios e um suspense bem empregado, misturada com ação pontual e reviravoltas que marcam as páginas de forma gradual até um desfecho fenomenal. A escrita é bem dinâmica e as páginas passam rápido, deixando a história imersiva e marcante, equilibrando bem os detalhes, pensamentos, teorias e a ação que os personagens empregam no ambiente e às vezes em suas próprias mentes.

Os personagens são bastante bem feitos de forma a torná-los realmente humanos, com traumas e histórias próprias que os aproximam bastante do leitor, fazendo-o se interessar muito mais com a história e se importar cada vez mais com o destino dos personagens. Destino esse que vai se mostrando a cada ação e a cada pensamento dos personagens, sejam eles principais ou secundários nesta trama arrebatadora.

“O tempo é o que impede que tudo aconteça de uma vez”

Falando em história, ela é uma junção de investigação com ficção cientifica, girando em torno da psique humana e em como enxergamos nossa própria realidade. Criando uma teoria de que só percebemos o tempo por que temos memórias do que vivemos, vendo ele passar linearmente, como uma reta, a obra nos faz indagar se o tempo não é uma ilusão imposta por nossa mente como uma falha evolutiva para nos privar de ver os fios que tecem a realidade verdadeira. Pois, se nossas memórias regem o que é tempo, então o presente não existe, por que só conseguimos registrar o que vemos e sentimos segundos depois do que aconteceu, de forma que o agora não é de fato o agora, e vivemos em um eterno passado, imaginando o futuro das coisas.

“Aquele que controla o passado controla o futuro.

Aquele que controla o presente controla o passado”

Pensando nessa teoria, o livro propõe que nossas memórias são um jeito de voltar no tempo, pois quando lembramos de algo, de fato estamos retornando ao passado, mas e se conseguíssemos burlar essa limitação do cérebro que nos faz apenas lembrar artificialmente de algo e conseguíssemos fazê-lo nos transportar realmente para a memória que queremos? Bom, é justamente isso que a história se propõe a contar, a quebra da limitação, uma viagem no tempo pelas memórias e uma evolução imensa em como vemos a realidade e em como nossa pisque entende as coisas.

“Quando uma pessoa morre, ela apenas parece estar morta. Mas continua bem viva no passado (…) Todos os momentos — passado, presente, futuro — Sempre existiram, sempre vão existir (…) É apenas ilusória a impressão que temos aqui na Terra de que um momento se segue do outro, como se fossem contas em um cordão, e, uma vez acabado o momento, está para sempre acabado”

Com a caminhada dos personagens, sentimos que nós também caminhamos rumo a um entendimento melhor do tempo e de nós mesmos, fazendo-nos criar memórias junto com eles, e nos transportando a nossas próprias memórias criadas. À cada página uma crítica de como vemos o mundo e o quanto podemos evoluir ainda. O tempo é um círculo e este livro é um ponto no círculo, existindo no passado e no futuro da nossa realidade, basta apenas lembrar.

Recursão é uma obra-prima de ficção-cientifica cumprindo o que propõe desde o início.

Gustavo Carvalho é escritor de contos e livros de horror, cursando engenharia mecânica, aprendendo cada vez mais o que se esconde nas entrelinhas do universo.

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Resenha | Guerras Secretas

Livro reúne X-men, Quarteto Fantástico, os Vingadores e os vilões em um mundo criado para eles se confrontarem.

Rodrigo Roddick

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E se você fosse transportado para um lugar em que seu maior desejo pudesse ser realizado? Só que para isso, você precisaria vencer seus concorrentes? É a partir deste cenário que nasceu Guerras Secretas. Apesar de o livro reunir distintos heróis Marvel, a premissa trabalha o conflito interno do ser humano.

“O Mundo de Batalha era feito de desejos”

Guerras Secretas é uma adaptação de um quadrinho homônimo escrito por Alex Irvine e publicado pela primeira vez em 1984. Ele ganhou a versão literária pela editora Novo Século em 2015, que já publicou diversas narrativas oriundas de histórias em quadrinhos.

O livro se inicia com diferentes heróis sendo transportados para o Mundo de Batalha, um planeta peculiar que ninguém conhecia. X-men, Quarteto Fantástico e os Vingadores, bem como os vilões Magneto, Ultron, Galactus e Doutor Destino precisam guerrear entre eles para atingir o maior prêmio que poderiam almejar: a realização de seu maior desejo.

A princípio, o leitor pode começar a questionar sobre o que um super-herói poderiam querer, se ele já possui poder, o que qualquer pessoa ordinária desejaria ter. Mas Alex Irvine brilhantemente se concentra nas limitações desses personagens, encontrando no poder delas o motivo de suas frustrações. Um exemplo é quando o Charles Xavier, que é paraplégico, começa a andar; outro é quando o Coisa passa a controlar sua transformação em pedra. Ou seja, mesmo sendo pessoas superpoderosas, elas também são humanas e, por isso, acabam tendo limitações e desejos.

Depois de estabelecer a premissa da narrativa, discretamente, por debaixo da trama, surge uma pergunta: o que você estaria disposto a fazer para realizar o seu desejo? E assim, a narrativa impele os leitores a uma análise íntima sobre suas limitações e escrúpulos, convidando-os às suas próprias guerras secretas.

Em um determinado momento, os personagens descobrem que existe uma entidade naquele mundo. Ele é chamado de Beyonder e é encarado como o ser que os levou para o Mundo de Batalha. Ao inseri-lo na história como uma entidade cósmica onipotente, Alex Irvine está metaforizando Deus. Essa provocação do autor propõe uma reflexão mais profunda.

“A verdadeira beleza reside no espírito e nas ações, na combinação da perfeição física com os atos divinos”

É possível observar isso no panorama: Beyonder leva os super-heróis àquele mundo, onde são incitados a digladiarem entre si para que o vencedor seja contemplado com a realização de seu desejo. Essa estrutura pressupõe então que seja esta a finalidade de Deus ao criar nosso universo: entreter-se.

“Ele nos colocou em guerra uns contra os outros para seu próprio divertimento”

E não por acaso, Irvine concentrou na postura do Doutor Destino o constante questionamento humano para com seu criador: ninguém deve controlar o próprio destino senão ele mesmo.

Saindo do campo teológico, Guerras Secretas também permite uma inferência social, questionando a atitude que coletivamente tomamos. É possível ver uma clara crítica ao sistema, que impõe ao ser humano — desde o momento que ele nasce — que ele se municie de ferramentas para realizar seu sonho. Porém, o prêmio é destinado a poucos, e isso gera um conflito de interesses, uma vez que todos querem realizar seus desejos, mas apenas os vencedores são contemplados com este benefício. Que vença o melhor!

Sintetizando este conflito de interesses na criação do Mundo de Batalha, o autor propõe ao leitor que ele é um indivíduo superpoderoso inserido em um mecanismo criado para sabotá-lo. Esse pensamento predispõe um jogo, portanto existe uma tentativa de fazer o interlocutor enxergar sua vida cotidiana como um jogo que ele não precisa jogar. Ao mesmo tempo, ele esclarece que o indivíduo tem o poder de criar qualquer realidade que desejar.

“No Mundo de Batalha, a realidade pode mudar”

Alex Irvine também se preocupou com o pensamento altruísta, geralmente remetidos aos heróis. Charles Xavier é o símbolo dessa ideia, propondo aos demais que eles não lutem, não façam aquilo que o Beyonder tanto incitou a fazê-los. Ele reflete que ninguém queria se levado para lá, então por que não se empenham e sair dali, em vez de jogar o joguinho daquela entidade?

Após essa elucidação, Guerras Secretas faz o leitor compreender que ele deveria usar o jogo a seu favor e não se tornar um escravo dele; que essa conduta faz parte da natureza humana.

“O animal humano é extremamente adaptável. Mesmo algo caótico e imprevisível como o Mundo de Batalha logo se torna navegável, uma vez que a inteligência humana tem a oportunidade de se aclimatar”

Guerras Secretas então acaba sendo um ensaio fictício sobre nosso próprio Mundo de Batalha.

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Resenha | Morte no Verão

Uma investigação sobre o lado oculto — escuro — do ser humano.

Rodrigo Roddick

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Noir sempre despertou curiosidade sobre o que as pessoas fazem quando estão no escuro. O que suas sombras contariam se pudessem falar? O gênero geralmente investiga esses critérios e tende levar a julgamento essas ações cometidas no escuro. Mas é uma narrativa que se repete. Morte no Verão tem elementos claros do gênero, apesar de não ser tão original quanto se espera.

Morte no Verão é um livro escrito por John Benville através do pseudônimo Benjamin Black — talvez escolhido para incitar o noir — e foi publicado pela editora Rocco em fevereiro. O autor é premiado, recebeu o Man Booker Prize com a obra O Mar e coleciona vários elogios de respeitados jornais internacionais na contracapa.

“As pessoas desaparecem quando morrem (…) Elas ainda estão ali, o corpo ainda está ali, mas e elas se foram”

A história gira em torno de Richard Jewell, um magnata que é encontrado morto segurando a arma do crime, uma espingarda. A hipótese preliminar é que fora suicídio, mas Quirke, o legista, indica que fora assassinato e então se inicia uma investigação para descobrir o autor do crime. Apesar desse ser o ímpeto inicial, o leitor vai descobrir que o romance se foca mais nas descobertas da vida particular da vítima que na acusação de um culpado.

A proposta superficial do livro é fazer o leitor descobri quem é o assassino, afinal é um romance policial. E isso se prova algo extremamente fácil. Quem lê ou assiste obras noir, ou quem pelo menos conhece o gênero, não vai encontrar dificuldade alguma em identificá-lo. Portanto o autor se concentra em rechear a narrativa com a vida obscura de Richard Jewell. E apesar de ser uma situação interessante, não é lá tão original.

O romance é muito bem escrito e apresenta alguns elementos nas falas dos personagens que convencem o leitor a lhes dar uma atenção especial, entretanto eles não possuem muita profundidade quanto esperado, nem mesmo os personagens do ciclo principal.

“Talvez ninguém jamais fique sinceramente triste quando alguém morre, apenas finja. Não dizem que não é pela pessoa que morre que nos lamentamos, mas por nós, porque vamos morrer também?”

O mais interessante, porém, é a vida particular da vítima. Até o final, Benville propõe uma discussão encontrada algumas vezes em outros livros: em alguns casos, o crime é justificável? Até que ponto um crime pode ser considerado errado? É uma reflexão delicada, afinal crime é crime, mas que enriquece bastante o ser humano e o coloca na busca de suas próprias opiniões sobre os “certos e errados” da vida.

Apesar de ser um bom representante do gênero, não espere de Morte no Verão um livro empolgante e intrigante. É uma narrativa lenta, que procura levar o leitor para dentro da época mais do que seduzi-lo com jogos inteligentes.

Com algumas tiradas inteligentes e favorecendo os elementos noir, Morte no Verão consegue ser uma leitura calma e tranquila, adequada para uma tarde de domingo — preferivelmente quente para se inserir no enredo.

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Resenha | 1984

O livro propõe uma ditadura através da resignificação da linguagem. Uma “razão” que destrói palavras.

Paulo H. S. Pirasol

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1984

A obra de George Orwell começa a ser escrita em 1947, é publicada em 1949 e lançada no Brasil em 2009 pela editora Companhia das Letras. 1984 apresenta uma distopia de um mundo dividido em três grandes potências padecendo de uma guerra sem fim.

capa 1984

Oceania, uma das potências, é o espaço físico do protagonista Winston Smith, funcionário do departamento de Registo do Ministério da Verdade. Com os seus questionamentos e relações sexuais discretos com Júlia, membro de Liga Juvenil Anti-Sexo, ele ameaça o controle do regime político totalitário: Socialismo Inglês ou Ingsoc regido pelo Grande Irmão.

O Partido possuí quatro ministérios que trabalham na manutenção do controle de submissão da população. Orwell é criativo quanto ao funcionamento dos ministérios e quanto às estratégias cobradas para o funcionamento do regime. No início, a montagem da história forma uma estrutura que se divide em conflitos do personagem no passado e no funcionamento do Partido. Durante o desenvolvimento da narrativa, esta divisão se transforma em um único argumento, resultado de uma sinapse do conflito entre o Amor e a Autoridade.

“A Décima Primeira Edição será definitiva – disse ele. – Estamos dando à língua a sua forma final – a forma que terá quando ninguém mais falar outra coisa. Quando tivermos terminado, gente como tu terá que aprendê-la de novo. Tenho a impressão de que imaginas que o nosso trabalho consiste principalmente em inventar novas palavras. Nada disso! Estamos é destruindo palavras – às dezenas, às centenas, todos os dias. A Décima Primeira Edição não conterá uma única palavra que possa se tornar obsoleta antes de 2050”

Entre as estratégias do Partido, se encontra a Novilíngua — a qual o trecho acima se refere — apresentando a ideia da formação de uma nova língua que busca a redução gradativa de palavras. Pois bem, o que há entre as palavras e as coisas para que tenha potencial nesta ideia? Existem algumas formas de pensar sobre as palavras, entre as mais comuns está o nominalismo que procede de uma ideia de que o universal não passa de um nome, uma convenção que damos. Já para os realistas, as coisas e os nomes possuíam uma analogia prática. Quanto mais universal fosse o termo gramatical, maior seria o seu grau de participação na perfeição original da ideia. Um substantivo que exige mais de uma ideia, apresentaria em si também a maior exigência daquilo e para o Partido este era o problema.

“É lindo, destruir palavras. Naturalmente, o maior desperdício é nos verbos e adjetivos, mas há centenas de substantivos que podem perfeitamente ser eliminados. Não apenas os sinônimos; antônimos também. Afinal de contas, que justificação existe para a existência de uma palavra que é apenas o contrário de outra? Cada palavra contém em si o contrário. “Bom”, por exemplo. Se temos a palavra “bom,” para que precisamos de “mau”? “Imbom” faz o mesmo efeito — e melhor, porque é exatamente oposta, enquanto que o mau não é. Ou ainda, se queres uma palavra mais forte para dizer “bom”, para que dispor de toda uma série de vagas e inúteis palavras como “excelente” e “esplêndido” etc. e tal? “Plusbom” corresponde à necessidade, ou “dupliplusbom” se queres algo ainda mais forte. Naturalmente, já usamos essas formas, mas na versão final da Novilíngua não haverá outras. No fim, todo o conceito de bondade e maldade será descrito por seis palavras — ou melhor, uma única. Não vês que beleza, Winston? Naturalmente, foi a ideia do Grande Irmão, — acrescentou, à guisa de conclusão”

De forma sútil, interessante e justificável, esta explicação é realizada no início da história para que possamos compreender os movimentos estratégicos do Partido, não por uma conduta crítica, mas pela perspectiva empolgante e positiva de uma ideia diabólica visando o retrocesso da Razão que se contrapõe ao dogmatismo do Grande Irmão. Entretanto, a necessidade deste novo idioma não se sustenta somente com o sucesso de romper a ligação do pensamento e o ser nas categorias lógica-linguísticas, mas principalmente para a criação de uma nova história. Outra presença fundamental é o Duplipensar.

“E se todos os outros aceitassem a mentira imposta pelo Partido – se todos os anais dissessem a mesma coisa – então a mentira se transformava em história, em verdade. “Quem controla o passado,” dizia o lema do Partido, “controla o futuro: quem controla o presente controla o passado.” E no entanto o passado, conquanto de natureza alterável, nunca fora alterado. O que agora era verdade era verdade do sempre ao sempre. Era bem simples. Bastava apenas uma série infinda de vitórias sobre a memória. “Controle da realidade”, chamava-se. Ou, em Novilíngua, “duplipensar.”

O duplipensar consiste em ter simultaneamente duas opiniões conflitantes e acreditar em ambas. Fazer com que a população exercesse essa prática foi o que tornou compreensível a conformidade do slogan: Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força.

Devido a essas alterações no conhecimento é que foi possível a aceitação deste slogan como verdade. Graças ao Ministério da Verdade, onde Winston trabalha, foram alterados fatos históricos em favor do Partido. Esta cautela de Orwell de apresentar maneiras compreensíveis e atemporais da realidade torna sua ficção plausível. Nos pontos mais surreais, o interesse não se mantém por uma série de conflitos — pois o conflito já é definido como único desde o início — mas sim por uma curiosidade na construção da submissão, por entrelaçá-la no contexto em forma de uma sátira perversa.

E essa perversidade está impregnada em todos os momentos. Não há fuga quando o lema do Grande Irmão presente em cartazes em todos os lugares é “Is Watching You”. Mesmo que ninguém tenha o presenciado alguma vez, eles o seguem como uma divindade que é onipotente e onipresente.

De que forma é possível confrontar um sistema ditador bem instituído? É essa pergunta que o livro procura refletir.

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