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Resenha | Sandman – Edição Definitiva vol. 1

HQ revela que sonhos constroem realidade e dão sentido à vida.

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Tão misterioso é o sonho. Imaginamos compreendê-lo, mas o encaramos com superficialidade. Sonho não é apenas a confluência de imagens, sons e cheiros que ficam revolvendo em nossa mente enquanto estamos dormindo. Sonho é muito mais. É um desejo poderoso e desesperado que nos motiva a caminhar rumo ao destino pretendido; é um delírio de uma mente sã ou doente; é o princípio criativo que sobrevive da própria destruição; e, finalmente, sonho é o que colore todo nosso caminho até chegarmos à morte, que inclusive nos faz valorizar o percurso.

Compreendendo as diferentes miríades do sonho, Neil Gaiman presenteou os fãs de quadrinhos com Sandman em 1989. Ela foi publicada pelo extinto selo Vertigo/DC (agora se chama DC Black Label) em 75 edições organizados em 13 arcos. No Brasil, a história foi impressa pela editora Globo e depois pela Conrad, chegando então a Panini, onde está até hoje.

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A Netflix está adaptando Sandman para uma série e, recentemente, divulgou a data de estreia: 31 de outubro deste ano. Antes, a Warner tentou transformar a história em um filme, mas não deu certo devido a divergências entre os produtores e o ator Joseph Gordon-Levitt, que interpretaria Morpheus.  

A história conquistou inúmeros prêmios, dente eles o World Fantasy Fiction em 1991 e o Eisner Award de Melhor Escritor por três anos consecutivos, 1992, 93 e 94. A Edição Definitiva volume 1 de Sandman compreende 20 edições, começando com O Sono dos Justos e encerrando com Fachada. Ao final há uma miscelânea em que Gaiman expõe seu storyboard original.

Sinopse

Sandman começa com uma ordem ocultista que tenta capturar a Morte através de um ritual. O líder da ordem é Roderick Burgess e ele pretende exigir que a cativa lhe conceda a imortalidade. Porém, o ritual dá errado e eles acabam invocando e aprisionando o Sonho, irmão mais novo dela. Sonho fica preso por 70 anos e, durante esse tempo, a humanidade sofre com sua ausência; algumas dormem permanentemente, outras vivem como sonâmbulas, enquanto há aquelas que não conseguem mais dormir.

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Sonho fica esse tempo todo aprisionado porque espera pelo momento oportuno para se libertar. Quando isso acontece, ele se recupera e começa a caçar seus objetos de poder que lhe foram roubados no momento de sua captura. E também deseja se vingar de seus captores. Mas Roderick está morto, portanto ele se concentra em seu filho, Alex.

Sonho e os perpétuos

Sandman é o nome do protagonista que personifica todos os aspectos do sonho no universo. Ele possui mais seis irmãos que, juntos, formam os sete perpétuos. Esses seres independem da crença neles, são maiores que deuses e são a própria coisa que representam. Sonho é o próprio sonho, mas em figura antropomórfica. Ele é e rege tudo o que diz respeito ao sonho assim como a Morte é e rege tudo que se relaciona com a morte. Todos os perpétuos são assim.

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Sonho também é chamado por outros nomes como Morpheus (Deus do Sonho grego), Oneiros, Lorde Moldador, Tecelão dos Sonhos, Príncipe das Histórias, Devaneio etc. Ele é um homem alto, pálido e com olhos negros que brilham como estrelas. Ele veste metaforicamente a noite e possui um caráter soturno.

A melancolia é o traço mais importante dele, pois os sonhos carregam essa característica. Quando temos sonhos maravilhosos em que realizamos nossos desejos mais viscerais e acordamos deles, percebemos que eles não eram reais e nos frustramos. Não damos muito atenção a isso porque foi só um sonho, mas se fôssemos O Sonho e vivêssemos disso, fatalmente essa frustração viraria melancolia.

Seus irmãos são Destino, Morte, Destruição, Desejo, Desespero e Delírio. Curiosamente, em inglês (Dream, Destiny, Death, Destruction, Desire, Despair e Delirium), todos os nomes começam com “D”.

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A construção desses perpétuos já começa a revelar o brilhantismo de Gaiman, iniciando a exploração das camadas do sonho. Ele é tão multifacetado que foi necessário incorporar sete aspectos. O autor então criou cada irmão como um dos aspectos que o sonho pode assumir. Por exemplo, o sonho pode ser um desejo, quando queremos conseguir algo inalcançável ou definir uma meta de vida; ele também pode ser desespero, pois quando desejamos algo com muita vontade, ficamos desesperados em realizá-lo (não é à toa que Desejo e Desespero são irmãs gêmeas); ele é como o delírio, pois nossa mente pode produzir sonhos muitas vezes em momentos de insanidade; ele também assume a imagem de destino, pois sem sonho não há linha de partida, caminho e linha de chegada; também pode assumir a ideia de destruição, pois os sonhos estão em constante criação e desconstrução, afinal para um sonho nascer, o anterior precisa morrer; por isso também ele necessita da morte, pois é ela sua outra metade, quem define a vida. E o que é a vida senão uma história escrita a cada dia?

Gaiman propõe que muitas coisas que conhecemos nasceram do sonho humano, como deuses, mitologias, religiões, normas, ideias, desejos, histórias e, sobretudo, realidades.

Cada perpétuo possui um signo que o representa e é, através deles, em suas galerias, que se comunicam. O símbolo de Sonho é seu próprio elmo; Destino carrega um livro com o mesmo nome dele ao qual é acorrentado; Morte é simbolizada pelo Ankh (hieróglifo egípcio que significa a eternidade); Destruição, uma espada; Desejo, um coração, e Desespero, um anel com anzol. Já o signo de Delírio vive mudando, palavra que também a caracteriza.

Objetos de poder

Sonho utiliza três objetos para manipular os sonhos das pessoas. Ele tem um elmo, que protege sua constituição antropomórfica quando ele está em outro reino que não o Sonhar, um rubi que pode materializar sonhos no mundo desperto (como é chamada a realidade) e um algibeira com areia, a qual ele joga nos olhos das pessoas, adormecendo-as e provocando sonhos.

Neil Gaiman cria esses objetos para revelar metaforicamente o maior poder do ser humano: a criação de realidade. O elmo seria a razão (se Sonho perde a razão, também perde a consciência de si mesmo = delírio), um sonho frágil que domina a realidade humana. O rubi seria o coração (na HQ, Sandman revela que pôs muito dele nesta pedra), ou seja, simboliza o ímpeto de doarmos muito de nossa vida em detrimento da realização de um sonho. E a algibeira seria a criação, o fazer, pois nós somos o único animal da Terra capaz de manipular, alterar e criar a realidade. Esse é o nosso poder.

Sonho vs realidade

Uma das principais discussões da história envolve a necessidade que nós temos de compreender o que é real. A HQ propõe que o sonho então é o elemento que, por antagonismo, consegue definir a realidade. Quando vamos dormir, sonhamos, e quando acordamos, percebemos que tudo o que vivemos lá não existe de fato. Para sabermos o que é real, precisamos experimentar o que não é. Por isso sonhamos.

Sonho é história

Outra provocação que Neil Gaiman nos faz é a constatação que o sonho nada mais é que uma história. A princípio, a ideia pode parecer banal, mas genialmente ele a aprofunda, explicando que a história é o elemento que dá sentido a nossa vida.

Nós armazenamos e estudamos a história da humanidade na tentativa de construir um sentido que faça nossa vida ter algum valor. É nossa tentativa primitiva de compreender o significado da nossa existência. Como nós não temos esta resposta, mesmo após destrinchar todo esse conteúdo disponível na História, então construímos uma.

Para dar significado à vida, nós nos alimentamos de histórias. Toda e qualquer história tem o poder de nos fazer andar por um caminho traçado que inicia, perpassa e encerra dentro de um sentido. E isso fica conosco quando a história acaba. Nós somos ávidos por elas, pois quanto mais devoramos, mais significado atrelamos a nossa própria existência.

Elas são irresistíveis a todo ser humano e nenhum de nós pode dizer que não as queremos. Histórias possuem diversos formatos. Nós as consumimos em livros, em jogos, em filmes, em séries, em novelas, em redes sociais, em propagandas, em sonhos e também na vida.

A vida é um papel em branco onde escrevemos nossa própria história. Por que fazemos o que fazemos no cotidiano? Porque estamos imprimindo (pelo processo de viver) experiências, sentidos e situações (prazerosas ou não) que, juntos, formarão um conglomerado de cenas que contarão a nossa história. Contarão a quem? A quem vier depois de nós. Fazemos isso sem perceber porque está intrínseco ao nosso ser. Sem sabermos, manipulamos o único elemento capaz de nos tornar imortais: a ideia, a história, o sonho.

Portanto, sim, são as histórias (sonho) que dão sentido à vida.

Referências, simbologia e personagens da DC

Por se tratar de um universo da DC Comics, Sandman esbarra em alguns personagens que conhecemos. Nesta edição temos Constantine logo no início, Lúcifer (o mesmo personagem da série da Netflix), Doutor Destino (que assume o protagonismo de uma das histórias mais sinistras), Caçador de Marte (que faz uma aparição pequena quando Sonho está procurando pela gema) e um relance pequeno, mas maravilhoso, do Batman em um quadrinho. Há a presença de mais personagens que esses.

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Outras personalidades significativas referem-se à mitologia e à literatura. Temos Calíope (musa grega da eloquência), que expõe uma das lutas feministas, e temos o escritor inglês Willian Shakespeare. Gaiman o utilizou para mostrar como seria Sonho se ele fosse humano. Ambos são tecelão de histórias, portanto Sandman seria um escritor. A prova disso está no jeito que o protagonista fala. Neil Gaiman colocou algumas palavras rebuscadas na boca de Morpheus para marcar seu eu lírico literário como Príncipe das Histórias.

Há também um quadrinho em que uma pessoa está lendo IT – A coisa, de Stephen King, e inúmeras referências à música dos nos 70, 80 e 90.

O simbolismo também é uma grande marca de Sandman. Seja mitologicamente ou religiosamente, a HQ traz muitos símbolos conhecidos na História. Vemos isso em Matthew, o corvo de Sonho que é uma clara referência a Hugin e Muni de Odin; no Ankh, símbolo egípcio da eternidade; no Olho de Hórus (maquiagem da Morte), que representa o olho que tudo vê e em diversas concepções religiosas como inferno, reinos etc.

Histórias mais marcantes

Dentre as 20 histórias que compõem esta Edição Definitiva, seis delas me chamaram mais atenção. A primeira delas foi Uma esperança no inferno, quando Sonho vai ao inferno recuperar seu elmo e trava uma batalha de ideias com um demônio. Essa batalha consiste na superação progressiva em que os participantes precisam listar uma coisa que supere a anterior. Gaiman encerra esse conflito com uma maestria digna dele.

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Também me apaixonei por Calíope, em que um escritor fracassado estupra a Musa da Eloquência e começa a escrever histórias maravilhosas e vira um best-seller. Calíope já fora mulher de Sandman em determinado momento e com ele tivera um filho, Orpheu. Por causa disso, Sonho vai ao seu socorro.

Outra história fantástica é Um sonho de mil gatos. Uma das minhas favoritas, essa história é protagonizada por gatos e um deles conta que nem sempre a vida dos gatos foi como é hoje. Antes era o inverso, os humanos eram pequeninos e os gatos, gigantescos. Os humanos eram escravos deles e, de vez em quando, viravam caça. Mas um dia, um homem descobriu um segredo em um sonho. Ele contou a seus semelhantes que se mil pessoas sonhassem com um mundo diferente, ele viraria realidade. E foi isso que eles fizeram, por isso que hoje os gatos são pequeninos. Essa história é uma clara critica à humanidade que vive e mantém o sonho (realidade) que outros poucos humanos sonharam. O cotidiano capitalista é um exemplo disso.

Imagem 8 Um Sonho de Mil Gatos

O Som de suas asas é uma das histórias mais citadas de Sandman. Primeiro porque sua irmã, a Morte, finalmente aparece. Porém o mais legal dessa HQ é conhecer o trabalho dela. Nesta história a Morte encontra Sonho todo esmorecido porque ele não tem mais objetivo (algo bem característico dos sonhos, né?). Ela então o convida a acompanhá-la enquanto trabalha, ou seja, recolhe vidas. Sandman então percebe o pesado fardo que sua irmã carrega e acaba redescobrindo seu verdadeiro propósito de existir.

Imagem 6 O som de suas asas

Outra história muito famosa, que vai aparecer na série da Netflix, é 24 Horas. Nela, o Doutor Destino, em posse do rubi do Sonho, controla os eventos em uma cafeteria. A cada hora, ele realiza um de seus desejos mais obscuros, brincando com as vidas dos clientes. O interessante dessa HQ é a provocação do autor. Ele demonstra como seria o resultado se um ser humano tivesse o poder de realizar os próprios sonhos, muitas vezes obscuros.

A minha história favorita é Fachada porque ela conta o sofrimento de uma metamorfo que consegue sobreviver a diferentes tipos de destruição. Porém o maior desejo dela é morrer, pois ficou muito sozinha depois que virou metamorfo. Incapaz de conseguir isso devido aos seus poderes, ela vive uma depressão sem fim. Imagine uma pessoa suicida que não consegue dar cabo da própria vida? Esse é o sofrimento dela. Apesar de tocar no tema depressão, a história faz alusão à imortalidade. Gaiman nos provoca uma questão: se nós conseguíssemos ser eternos como os perpétuos, em algum momento nos cansaríamos de viver? Se sim, como fugir da imortalidade se não podemos morrer? Através dessa amarga reflexão, o autor demonstra porque a dádiva da Morte é um presente.

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Fachada fecha brilhantemente esta Edição Definitiva completando o sentido de O Sono dos Justos. É interessante que a edição comece com o desejo de imortalidade e se encerre com um desejo inverso. O paralelismo que estas duas histórias criam é digno de poesia.

Sandman explora o multifacetado sonho, mas imprime em nós uma resposta para a pergunta que sempre nos fazemos: qual o sentido da vida? História.

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