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Rodrigo Roddick

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Várias serpentes deslizam na capa e isso pode fazer algumas pessoas já olharem torto para o livro como também pode convidar outras a abrirem-no. A princípio, o espectador pode imaginar uma história empolgante… E é justamente assim que Serpentário não começa.

Choque à parte, não entenda errado. O livro é bom. MUITO BOM. Continue lendo esta resenha e vai entender…

“É um mundo de predadores, Carol. Temos que fazer de tudo para ficar no topo da cadeia alimentar”

Serpentário foi criado por Felipe Castilho, um escritor brasileiro também autor de Ordem Vermelha, e publicado pela editora Intrínseca em agosto. Felipe é mais conhecido pela série O Legado Folclórico e já chegou a ser indicado ao prêmio Jabuti 2017 com o quadrinho Savana de Pedra. Sua marca é trazer a fantasia nacional ao conhecimento dos brasileiros, o que parece ser meio redundante, mas diante de nossa cultura social se faz totalmente necessário.

A história, tal como IT – A coisa, se passa em dois momentos: adolescência e idade adulta e é entrecortada por fragmentos atemporais – tanto do passado como do futuro – que complementam e amplificam a metáfora da Ilha das Cobras e o rastejar da serpente entre os tempos… É justamente um desses capítulos que abrem o livro, situando o leitor em um espaço-tempo longínquo e nada agradável.

A trama traz um personagem morto logo de início, ou melhor, deixado para morrer por seus amigos ricos… Paulo, o único pobre, ressurge dezenove anos depois como um rico empresário, para a surpresa de seus amigos, que passaram o mesmo tempo remoendo as sequelas de terem-no deixado para trás.

De início, Felipe começa explicando, através do vai e vem que permeia a história, como a monótona vida dos personagens foi transformada pelo episódio fatídico de ter perdido o amigo Paulo. Este só é mencionado até então e só vai colorir a história bem depois. Talvez por causa disso – e também da demora para o antagonista surgir de fato – a narrativa soe um pouco cansativa no começo.

Apesar disso, ela mantém o leitor desperto e interessado em descobrir o misterioso episódio, que não é narrado em nenhum momento senão lá nas páginas finais do livro. Esse mistério, de entender quem é a serpente, a ilha, e o que elas significam, rasteja por toda a narrativa.

As palavras foram muito bem escolhidas por Castilho, que navega entre o saudosismo português e o dialeto periférico, abrilhantando a experiência literária e evidenciando a mescla cultural que é o brasileiro. Isso, inclusive, fica muito marcado através das referências pop e as comparações – que a princípio parece ser nada a ver com nada – que forma uma concha de retalhos colorida que tanto encanta os estrangeiros por nossa terra. Afinal, o colorido brasileiro é lindo. Por isso o carnaval foi transformado aqui e ganhou nossa personalidade.

Em paralelo ao nacionalismo suavizado de Castilho, o romance provoca – e aqui está a essência da obra – uma metáfora muito similar ao livro mencionado de Stephen King. A serpente, em suas variadas formas e cores, possui características semelhantes ao ser humano, como trocar de pele, por exemplo, mas ainda assim nunca deixar de ser serpente.

“A pele de alguém é a armadura que protege sua alma. Juntas, alma e pele transmitem força através da linhagem. Linhagem é história, e histórias que se cruzam são fortalezas e tendem a ser lembradas”

O que é então este ser? Ele é o resquício de um passado vivido e integrado ao cerne de uma pessoa que configura uma palavrinha tão arraigada e sustentada como personalidade. Esta essência inserida no ser humano é construída desde a infância e assim que é moldada carrega as experiências em forma de memórias que rastejam dentro da gente por toda vida. Não é de brincadeira que Felipe fica oscilando entre infância e fase adulta… o que ele quer dizer com isso é que, por mais que troquemos de pele o tempo inteiro – e vamos assumindo outras idades; adolescência, adulta e idosa –, ainda somos a mesma serpente que formamos quando éramos pequenos. Nós carregamos nossos desejos, medos, sonhos e experiências desde que nos descobrimos vivos.

“Nomes são superestimados e desaparecem da mente dos nossos amigos mais rápido que as boas ações que fazemos para obter a aprovação deles”

Deve-se a isso o motivo do vai e vem no tempo. Independente do momento ou fase que estamos em nossa vida, somos aquela mesma serpente (desejos + sonhos + medos) pequenina brincando numa ilha chamada infância. Não há como negar. Somos. E até o dia que finalmente poderemos descansar nossa cabeça para sempre no seio da terra seremos crianças sem saber nada da vida.

Além desse precioso diálogo que Felipe Castilho nos propõe, há ainda um passeio suave sobre questões que sempre estiveram presentes na humanidade – talvez por isso a ilha perdida no espaço-tempo sempre volte – como racismo e homofobia… enfim, preconceito. E é muito interessante abordar este tema no Brasil porque aqui é a terra da confluência de muitas culturas distintas… e nas sinapses entre elas, às vezes a eletricidade machuca, em vez de ligar a luz.

Ainda há uma provocação ao consumismo que caracteriza a vida urbana e social qual todos nós estamos inseridos globalmente originado pela ganância humana (um dos sete pecados capitais, que podem ser metaforizados como serpentes).

“Pois aquela raça, híbrida dos seus e dos outros, cultuava essa divindade que era o consumo. O excesso. O ter. Todos eram como serpentes mordendo a própria cauda e se alimentando da própria existência”

Com todo esse carnaval muito bem amarrado pela serpente, Felipe Castilho presenteia-nos com nossas próprias cobras, animais que por muitas vezes foram sinônimo de sabedoria, saúde (Será que é à toa que Caroline quer ser médica? Rs), traição, poder, ambição e, até mesmo, pecado; elas nada mais são que nossos “eus” rastejantes dentro de nós.

Também não é aleatória a escolha do réveillon (que de etimologia francesa significa despertar, acordar) como momento crucial para os acontecimentos do livro, afinal é quando jogamos nossas peles velhas para trás e assumimos novas identidades…

Serpentário é um novo signo, um Homem de Branco, nossos desejos secretos, nossos medos, a sabedoria… ele é tudo isso e muito mais. Serpentário é uma história. Uma história sobre ser humano.

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HQs

Resenha | Black Hammer

Uma história sobre heróis que foram pagos com a prisão após salvarem a humanidade.

Gustavo Carvalho Cardoso

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Black Hammer é uma HQ escrita por Jeff Lemire e desenhada por Dean Ormston, publicada pela editora Intrínseca em 2018. Jeff Lemire é um dos grandes nomes dos quadrinhos atualmente, criando histórias sombrias com tramas envolventes e com personagens cativantes.

Há 10 anos um grupo de heróis salvou Spiral City de um inimigo chamado Antideus, porém, este feito foi pago com a liberdade. Os heróis foram banidos para uma fazenda em uma pequena cidade prisão.

A HQ é uma homenagem às antigas histórias em quadrinhos que eram lançadas pela Marvel e pela DC. Os heróis são bem definidos e são quase uma paródia de heróis que já vimos em outros lugares como o Abraham Slan que é quase um Capitão América sem soro de supersoldado.

Os personagens têm camadas bastante distintas, propiciando choques de realidade e problemas familiares entre os membros, que é o que os torna muito humanos. É fácil se conectar com a trama, pois ela é bem engajada e as páginas passam rápido, fazendo o leitor mergulhar nesta história sombria e cheia de mistério.

Presos em uma prisão fora da realidade, eles têm que se misturar aos humanos de uma pequena cidade, o que leva os heróis a adotarem uma mentira conjunta. A verdadeira missão de suas vidas então começa, pois, além de terem que lidar com seus próprios traumas, terão também quem lidar com os traumas de seus colegas, como uma família.

A subversão de heróis poderosos a chefes e integrantes de uma família faz com que a história tenha um tom mais pesado, fazendo com que cada página seja uma surpresa nova.

Black Hammer é muito bem desenhada e cada personagem tem um estilo de desenho único para se encaixar com a trama que ele traz, como a Madame Libélula que apresenta um traço mais sombrio baseado nas HQs antigas de terror.

A HQ resgata a humanidade dos super-heróis ao mesmo tempo que discute a linha tênue que os faz ser vistos como monstros quando não são mais necessários.

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HQs

Resenha | O melhor que podíamos fazer

“Um livro para despedaçar seu coração e depois curá-lo”

Mylla Martins de Lima

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O melhor que podíamos fazer, publicada em 2017 pela editora NEMO, traz a memória gráfica da família de Thi Bui, uma vietnamita refugiada para os Estados Unidos. Essa autobiografia tem o intuito de encorajar, educar e inspirar de um modo diferente.

O melhor que podíamos fazer | Amazon.com.br

A história já começa com um momento muito especial na vida da autora, o parto de seu primeiro filho. Toda a ideia por trás da obra teve sua origem na construção de sua própria família partindo do questionamento: como seria a vida de seu bebê senão uma sombra carregada de medo e sofrimento?

Thi Bui começa a explicação dessa primeira pergunta através de um flashback extenso que se prolonga até as últimas páginas do memorial, desenhando em quadros as passagens de sua dura vida no Vietnã, a começar pela origem da guerra. Dessa forma, a autora vai dando voz às histórias contadas sobre a infância dos mais velhos. Abrindo espaço para seu pai, a autora reproduz as agressões aferidas de seu avô contra sua avó, que foi posta para fora de casa mesmo em um período conturbado, onde a fome devastava a população mais pobre.

Thi Bui Nos Faz Refletir Sobre O Melhor Que Podíamos Fazer Em Uma ...

Em 1940, época da Segunda Guerra Mundial, não só a Europa sofria com a invasão das tropas nazistas, mas o Japão e a China também entraram em conflito. Quando a ‘Terra do Sol Nascente’ resolveu bloquear as rotas de abastecimento chinesas, as pessoas improvisavam como podiam para sobreviver, e com a família dele não foi diferente. Sem mãe, o pai Nam descobre toda a maldade do mundo antes mesmo de se reconhecer como cidadão. Ele passa a narrativa inteira preocupado com sua própria vida. Ele foi criado pelos avós e futuramente se torna pai de Thi Bui e seus irmãos.

A vida de Má, mãe da menina, é bem diferente da de seu marido. Vinda da classe alta, seu pai era um engenheiro que trabalhava para os franceses, por isso as coisas só ficaram mais estreitas. A guerra se torna um empecilho mais tarde, quando os caminhos dela se cruzaram com os de Nam. Por conta do relacionamento de dar entre classes totalmente divergentes, o preconceito por parte da família da moça a acabou afastando, passando a viver na humildade junto ao seu futuro esposo.

Apesar de todos os transtornos na juventude, mesmo após o nascimento de seus filhos, a vida do casal não teve qualquer alívio. Os horrores do passado ainda os assombravam e, pensando no futuro dos pequenos, decidem tentar uma vida longe do caos que o Vietnã dos anos 70 ainda era, mesmo que isso significasse um tiro no escuro.

Crítica | O Melhor Que Podíamos Fazer: Memórias Gráficas – Central ...

Thi Bui dá ênfase no passado de seus pais, mas também fala um pouco sobre a dificuldade no nascimento de cada irmão. Contudo, o mais interessante, e até importante, dessa trajetória narrada é a perspectiva do anciãos sobre a guerra… até porque, quem melhor para falar senão quem passou pela dificuldade desde o início?

Com muita sensibilidade, a autora fala um pouco sobre a vida difícil de seus pais, dando mais visibilidade a Nam, já que esse se mostrava um homem mais ríspido. É de aquecer até o coração mais frio o respeito, orgulho e gratidão em suas palavras quando o assunto beira à luta, à força e à superação de seus ascendentes.

A ilustração é única. As partes mais escuras refletem muito bem o teor dramático que Thi quis empregar. Alguns detalhes avermelhados em formato aquarelado, bem manchado, não alegram as páginas, apenas fazem o papel de ponto focal, como para localizar o personagem a ser destacado.

A estréia da autora é fascinante, a qualidade do material e sua escrita estão impecáveis. O livro é indicado para quem ama leituras de superação ou quem ama textos históricos. É uma verdadeira aula sobre o século XX.

O melhor que podíamos fazer é o tipo de história que tem muito para ensinar. As mensagens mais importantes são a de coragem e perseverança.

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Resenha

1793

A época e o lugar onde a ambição tem um preço.

Gustavo Carvalho Cardoso

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O livro 1793 foi lançado em 12 de março de 2020 pela editora Intrínseca e foi escrito por Niklas Natt Och Dag. O autor é descendente da mais antiga família sueca ainda viva e tem forte conexão com seu país. Em seu romance de estreia, ele ganhou prêmios importantes como o de Melhor Ficção Estreante da Academia Sueca de Escritores de Ficção Policial, em 2017, e o livro do ano na Suécia no ano seguinte.

Na Estocolmo de 1793, um cadáver é achado no lago da Ucharia, sem pernas, braços e vários elementos da face. O corpo estava tão desfigurado que era impossível identificá-lo. Cecil Winge, um dos melhores advogados a serviço da polícia, decide investigar o assassinato com a ajuda de Mickel Carrell, um vigilante bêbado que foi chamado para tirar o corpo da água, mas o que parecia fácil para as deduções precisas de Winge, passa a ser o trabalho mais difícil de sua vida; e os traumas de Carrell, de longe são os mais terríveis até ali.

“Engodo gera engodo, violência gera violência”

O livro é um romance policial de época, na qual os recursos são escassos e só o que faz um bom investigador é seu comprometimento com o caso. Se passando em uma Estocolmo em crise após sair das guerras Russas, o romance é retratado com bastante detalhes, estes bem pesquisados para trazer uma Estocolmo realista e cheia de problemas. A cidade é um dos pontos mais importantes, pois ela passa um ar de decadência não só devido à infraestrutura como também por seus habitantes passarem fome e ficarem cada vez mais suscetíveis às doenças que encurtam a já curta vida.

Enquanto os poderosos lucram com a falsa caridade, os pobres morrem pela mão do poder e aplaudem os espetáculos mortuários sempre que o carrasco mata um novo ladrão de galinhas; uma critica àqueles que detêm o poder. Eles são retratados manipulando não só os polos decadentes do ser humano e seus pecados, como também controlando os polos que investigam a crueldade humana, ou seja, assassinando a ideologia própria para criar uma ideologia coletiva baseada na justiça falsa.

A morte é um elemento presente não só na vítima em si, mas também em seus investigadores. Um exemplo disso é Cecil Winge, um advogado que carrega a morte no peito a cada passo, pois a cada tosse, ele se aproxima mais da lápide. Um homem disposto a sacrificar o resto de vida que tem para trazer justiça ao assassino brutal que ronda a escuridão e usa o anonimato e os jogos políticos para se camuflar em meio ao caos. A morte também acompanha Mickel Cardell de perto, pois a cada pensamento, ele se vê novamente na guerra, sentindo a dor em seu braço amputado e o trauma de ter perdido um amigo em uma guerra manipulada por um rei corrupto.

Os personagens são muito bem representados, cada um com camadas que dão profundidade a suas experiencias e suas vivencias. Acabam passando uma moral por trás de cada ação impensada por parte de Carrell e pensadas demais por parte de Winge. A dupla funciona muito bem, intercalando entre seus capítulos, utilizando cada ponto de vista para dar seguimento na ação seguinte da história, mostrando seus métodos de investigação. Cada página os torna mais humanos, nos fazendo refletir o que faríamos em seus lugares, e como lidaríamos com os traumas e problemas que assolam suas mentes.

Os capítulos passam rápido e a cada virada de pagina nos deparamos com mais perguntas que nos levam a indagar a natureza das coisas e da índole humana. É uma investigação policial plena e cheia de reviravoltas, com uma trama política pesada e com criticas à sociedade da época, onde o poder e o status carregam mais honra que a razão e a disciplina. A narrativa conta com um uma trajetória que nos faz investigar junto aos personagens, analisando cada ponto para achar o assassino.

Com uma trama bem feita, uma investigação acompanhada de traumas e personagens bem escritos, 1793 é uma caricatura da época em que a humanidade estava em crise.

O livro constrói uma trajetória que mostra que nós somos tão falhos quanto nossos inimigos, mas o que nos difere deles é nossa competência em tentarmos ser melhores.

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