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Resenha

Resenha: “Stranger Things – Raízes do Mal”

Romance revela acontecimentos pré-temporada 1 e aborda temas como feminismo e homem x natureza.

Rodrigo Roddick

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Como Eleven nasceu? Dr. Brenner é seu pai de verdade? Como a mãe de Eleven chegou ao experimento? Eles ainda estão vivos? As perguntas acerca do passado de El atravessam a cabeça de todos os fãs de Stranger Things. Em Raízes do Mal essas dúvidas são respondidas.

Stranger Things – Raízes do Mal chegou ao Brasil pela editora Intrínseca em maio deste ano. O romance foi escrito por Gwenda Bond, uma autora conhecida por misturar elementos sobrenaturais em suas histórias juvenis e infanto-juvenis. Ela faz um belo trabalho nesta obra por narrar os acontecimentos de forma comedida e com cortes bem delineados, o que era de se esperar de uma jornalista.

A história se passa entre os anos 1969 e 1970, antes da 1ª temporada da série, e começa com um acontecimento emblemático desta época: a visita do homem à lua – que vai marcar o tônus da narrativa. No geral, o romance trata sobre a vida dos pais de Eleven, o casal Terry e Andrew. Terry tem a determinação de “mudar o mundo”, contribuir com a humanidade através de um grande feito, por isso quando sua amiga Stacey fala sobre os experimentos acontecendo no Laboratório Nacional de Hawkings, ela rapidamente assume seu lugar. Lá, Terry não apenas faz três novos amigos – Alice, Glória e Ken – como conhece um homem qual ela saberia mais tarde se tratar da face do próprio mal: Dr. Brenner, o “pai” de Eleven.

Dr. Brenner, que nesta época sequer imaginava a existência de El, é um homem de visão, cruel e arrogante. Para ele, obter avanços nos projetos Índigo e MkUltra é o que importa. Ele chega ao Laboratório de Hawkings com Kali – a menina que cria ilusões – a qual insiste em chamar de Eight para criar uma distância entre eles. A história já brinda o leitor com o conflito do doutor com a Kali, pois ele precisa dela para avançar em seus experimentos, mas para controlá-la percebe que deve assumir uma representação paterna, o que ele detesta fazer.

Aproveitando a vida singela das pessoas naquela época, Gwenda Bond captura e aborda a discussão sobre temas socais que até hoje são discutidos, como o patriarcado. O leitor atento já percebe que este assunto vai ser muito explorado quando se depara com a maioria de personagens femininos e, não por acaso, com um antagonista masculino. Além do embate entre Terry e Brenner, existe uma briga milenar entre a mulher e o homem.

O machismo é retratado de maneira mais clara e muitas vezes emancipado pela lei – criada por quem? Homens. É possível identificá-lo logo de início nas exigências para participar do projeto: tem que ser obrigatoriamente mulher. Por quê? Os homens acreditavam na época que a mulher possuía uma limitada capacidade intelectual e que, por isso, deveriam obedecer aos homens.

“Mulheres e seus corações moles. Não resistem a uma criança”

Ao ser inserido na trama do livro, Brenner incorpora a ideia que pode controlá-las e, como um “bom cientista”, trata elas como cobaias. Entretanto ele não quer qualquer pessoa, está interessado naquelas de maior potencial. A autora ilustra nesse ímpeto como o homem estrutura e mantém a supremacia masculina, pois ao dominar “a mais habilidosa mulher” significa que ele deve governar o mundo a sua maneira.

“Ótimo! Não tolero achismos e suposições. Estamos aqui para ultrapassar as fronteiras da capacidade humana. Não quero ficar estudando humanos insignificantes. Eles não nos darão resultados extraordinários”

Há apenas um homem entre elas, Ken. O motivo dele estar ali é porque possui habilidades especiais, é vidente. Mas, é claro, existe outra razão… mais uma vez tocando em um ponto sensível da sociedade.

Em várias partes do livro, Terry precisa sobreviver a um mundo construído pelo e para o homem, em que suas ações rebeldes não passam de “capricho de mulher” ou, em casos mais extremos, uma infração legal.

“Garotas decentes não engravidam antes de casar”

Enquanto a história vai se desenrolando, uma frase fica sobrevoando a mente do interlocutor. Quanto vale a vida humana? As pessoas são tratadas por Brenner como peças de um tabuleiro que deve servir aos seus propósitos, mais nada. Ele não se importa com os limites naturais de um indivíduo, apenas com a necessidade de controlar sua mente.

“Manipular uma cabeça fraca não é nada. Precisamos daquelas com potencial”

Esta é a grande verdade gritada nos diversos produtos culturais da atualidade: o homem quer dominar o homem. Parece uma frase sem sentido ou banal, mas nela reside a ideia que a humanidade sempre desenhou sobre o mundo, a ilusão de ordem. O que nós, seres humanos, tentamos a todo custo é controlar nosso “eu selvagem”. Queremos mandar em nós mesmos. O homem quer doutrinar a natureza. 

“Nosso corpo, no fundo, é só mais uma máquina” 

Ou seja, na raiz do impasse abordado no livro encontramos um conflito muito antigo entre o homem e a natureza; a teimosia do homem em não aceitar que jamais vai dominá-la, nem a humana nem a geral.

Não é à toa que essa atitude é representada por Dr. Brenner, um cientista, uma figura muitas vezes apontada como um subversor da natureza e não um mantenedor de sua beleza e longevidade.

“Os caras deveriam trabalhar para gente, entende? Para o nosso bem”

A narrativa também brinca e diverte o leitor ao fazer referências ao Senhor dos Anéis de Tolkien para reafirmar a intenção do homem em controlar a natureza. Elas aparecem dentro da trama nas falas das personagens que estão lendo a aventura de Frodo e Sam. Para os leitores atuais, essa brincadeira de Gwenda Bond pode soar um tanto batida, por isso é importante contextualizar. Naquela época, Senhor dos Anéis era bastante popular entre a galera jovem e, junto das bandas de rock e os shows em Woodstock, constituem a cultura consumida pelas pessoas de 1969. 

Além do Laboratório de Hawkings, há outras referências aos elementos da série, como por exemplo os demogorgons. Alice, uma das colegas de Terry e também cobaia de Brenner, desenvolve algumas visões do futuro e, em algumas delas, consegue enxergar o monstro… 

“O tipo de criatura que surgiria se alguém desmontasse uma forma de vida e remontasse tudo errado. Braços longos demais. Uma cabeça parecida com uma flor escura”

E uma garotinha “careca” com poderes telecinéticos…

“A menina arrancou os cabos da cabeça. Alice notou um número no antebraço dela. 011”

A visitação do mundo escuro que é “lugar nenhum e também todos os lugares” fica por conta de Terry, Alice e Kali. Elas protagonizam algumas conversas neste ambiente.

A trama se encerra com o último confronto entre as cobaias e o Dr. Brenner através de um plano criado por Terry. Os resultados deste acontecimento revelam como as coisas chegaram até o início de Stranger Things. Quando o leitor fecha o livro, fica sentindo o gostinho de ter ganho um presente… o nascimento de Jane, nome real de Eleven.

A 3ª temporada de Stranger Things estreia em 4 de julho, na Netflix.

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Livros

Coraline

Um ensaio sobre a morte? Uma fábula sobre a pré-concepção de mundo? Ou uma história que ensina crianças sobre o perigo da tentação? A obra de Gaiman pode ser tudo isso.

Rodrigo Roddick

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O outro mundo, o outro lado, submundo, além… Quantos nomes inventamos para intitular o lugar mítico de onde ninguém voltou? Quantas perguntas nos fazemos sobre o que vem após a morte? Quantas vezes fantasiamos sobre ela? Coraline é uma fábula que não apenas levanta essas questões, como também propõe uma resposta: o outro mundo pode ser um espelho do nosso mundo.

Coraline é um livro escrito pelo autor multipremiado Neil Gaiman e publicado originalmente em 2002. No ano seguinte a editora Rocco trouxe uma edição deslumbrante para o Brasil com desenhos de Dave Mckean. Mas no mês passado a bola passou para a editora Intrínseca, que conseguiu se superar e trazer uma belíssima edição em capa dura com desenhos de Chris Riddell, ilustrador que já trabalhou em mais dois livros de Gaiman: O Livro do Cemitério e A Bela e A Adormecida.

O romance de Gaiman conquistou dois importantes grandes prêmios, o Hugo (2003) e o Nebula (2004). Mas o autor já está muito a acostumado a ser premiado, pois já escreveu obras inesquecíveis como Deuses Americanos, Os Filhos de Anansi, Lugar Nenhum, O Oceano no Fim do Caminho, O Livro do Cemitério, Orquídea Negra, Os Livros da Magia e, seu trabalho mais sublime e notoriamente artístico, Sandman.

O livro ganhou uma adaptação para o cinema em 2009 chamado de Coraline e o Mundo Secreto, que foi bem recebido pela mídia e pelos cinéfilos. Ele também foi adaptado para um grafic novel em 2002 com os traços do ilustrador Craig Russell, impresso no Brasil como a primeira HQ da Rocco.

Coraline é o nome da protagonista da história que tem uma necessidade intrínseca de explorar os ambientes, ou seja, é uma aventureira. Quando ela se muda para sua nova casa, descobre uma porta trancada que dá para um corredor misterioso que a conduz para uma casa exatamente igual à sua. A única diferença era que tudo ali era perfeito! Contudo havia algo estranho: todas as pessoas tinham botões negros no lugar dos olhos.

“Então a mulher se virou. Seu olhos pareciam grandes botões pretos”

A primeira experiência positiva do leitor, antes de começar a ler a história, é com a edição. A Intrínseca presenteou os fãs de Gaiman com um livro muito bonito e bem finalizado. Coraline vem com uma capa muito bem desenhada, com fitilho, com as extremidades das páginas pintadas em roxo, com ilustrações e com uma perfeita diagramação. O livro não deixa nada a desejar no quesito editorial. E com a história não é diferente.

Apesar de evocar um sentido sobre o além, o romance propicia múltiplas interpretações. Durante essa resenha trataremos sobre quatro, que serão a rasa, a profunda, a metafórica e a subliminar.

Interpretação Rasa – Premissa

A premissa de Coraline expõe um ensinamento punitivo sobre o perigo da curiosidade. A protagonista concentra três características que geralmente estão presentes em várias crianças; são elas a coragem, a inquietude e a curiosidade. Ela é uma pessoa aventureira que não consegue ficar parada e precisa descobrir novos lugares, novas pessoas ou novas histórias para se entreter, como muitas crianças. Porém essa conduta pode levá-la a lugares perigosos.

“Ser corajoso significa estar com medo, muito medo, mas mesmo assim fazer o que é certo”

Ao sair por aí se aventurando, os pequenos podem se perder, conhecer pessoas mal intencionadas, se machucar ou até mesmo sofrer um acidente fatal. Tal como na vida real, Coraline se depara com o perigo ao encontrar uma outra mãe esquisita que quer convencê-la a ficar ali para sempre, ou seja, sequestrá-la.

Nesse sentido, o romance se transforma em um alerta ao pais para que eles fiquem sempre conscientes de onde seus filhos estão.

Interpretação Profunda – Mundo pré-construído

Também em relação à premissa da história, Gaiman escreveu uma situação fabular que abarca todos os seres humanos. Seguindo essa ideia, Coraline representa a mentalidade infantil humana ante a descoberta e exploração da vida. Todos nós temos uma curiosidade de conhecer o mundo e seus múltiplos caminhos. Quando a protagonista entra em uma nova casa, o evento pode ser entendido como o ser humano adentrando o novo mundo, chegando à vida.

Entretanto este mundo já existia antes de nascermos, e essa verdade é lembrada quando Coraline encontra o mundo secreto. À primeira vista, ele é perfeito, contendo tudo daquilo que ela mais gosta, ou seja, é convidativo. O fato dela explorar seu novo mundo perfeito representa o crescimento de uma pessoa, quando ela vai sendo paparicada pelo mundo, convidando-a a fazer parte dele.

“É assombroso que aquilo de que somos feitos esteja tão ligado à cama que acordamos pela manhã, e o mais assustador é a fragilidade disso”

O encanto é tão sedutor que as pessoas, tal como Coraline, quase não percebem que terão que pagar um alto preço por tudo aquilo. Para nós, o preço é nos inserirmos no sistema, e isso é simbolizado nos botões em vez de olhos. O custo para entrarmos neste mundo pré-concebido que é empurrado a nós é ficarmos cegos para o que realmente queremos, só enxergar aquilo que faz o mundo girar.

Vocês, pessoas, têm nomes. É porque vocês não sabem quem são”

No momento que Coraline tivesse os botões costurados nos olhos, a Outra Mãe seria sua deusa e manipularia todos os seus passos. O mesmo acontece conosco quando decidimos abandonar nossa visão verdadeira para pertencer ao mundo, passamos a ser controlados por um mundo que estava aqui antes de nascermos; um mundo que coíbe e impede a criação da nossa própria realidade.

“Ela vai roubar sua vida e tudo de que é feita. Vai roubar tudo que é importante para você, para que só reste névoa e vapor. Ela vai levar sua alegria. Um dia, você vai acordar sem alma e sem coração. Você será apenas casca, trapo, um sonho, a memória de algo que se perdeu”

A ideia de um universo pré-construído fica bastante clara quando a Outra Mãe começa a desfazer o mundo secreto de Coraline, revelando o pano de fundo branco onde nada existe; uma tela em branco para nós pintarmos a vida que quisermos.

Interpretação Metafórica – Limiar

Outra interpretação que se pode ter lendo Coraline se relaciona com o limiar. Gaiman parece ser uma pessoa muito interessada neste assunto, pois tanto em Sandman quanto em Stardust – O Mistério da Estrela, Coraline também apresenta questões sobre uma barreira mítica que evidencia o contraste das coisas.

O limiar de Coraline é o portal que conecta os dois mundos, o real e o secreto. Ele permite que o leitor desenvolva questões sobre o que estes dois universos representam. Como a história se concentra no ensinamento de limites para as crianças, o limiar tem o papel de evidenciar que o cenário é a mente humana, concentrado precisamente no embate entre os desejos infantis e as regras.

O mundo real de Coraline simboliza o mundo de regras, onde ela tem que aprender a se comportar como uma cidadã. Este mesmo lugar restringe e implica com a personalidade dela que quer o tempo todo explorar os ambientes desconhecidos.

Já o secreto seria o lugar fantasioso imaginado pela criança, onde ela poderia fazer e ter tudo o que seus pais nãos deixam ou não lhe dão.

“Você não entende, não é? — disse ela — Eu não quero ter tudo. Ninguém quer. Não necessariamente. Que graça existira em ter tudo o que eu sempre quis? Assim, do nada, não teria o menor sentido. E depois?”

De acordo com esse pensamento, a história ensina como é perigoso viver no universo fantástico em que todos os seus desejos se realizam: a pessoa pode virar escravo dele para sempre, o que representa a perda da identidade.

Interpretação Subliminar – Morte

Enfim chegamos à questão do além. Assim como as interpretações acima, o romance de Neil Gaiman pode ser encarado como uma tentativa de compreender o que vem após a morte. Logo de cara, o leitor é contemplado com a ideia de um mundo secreto, uma outra casa onde estão outros pais… Essa construção faz clara referência ao universo desconhecido por todos os seres humanos que ironicamente é o lugar para onde todos irão. Lá, conjectura-se, que as pessoas poderão rever seus parentes, mas eles serão diferentes de como os conhecia em vida.

“Não há nada além daqui. Tudo que ela fez foi a casa, os pisos e as pessoas da casa. Ela fez e aguardou”

Dois símbolos fazem alusão clara à morte. O primeiro são os botões negros. O leitor vai perceber que os botões são o que prendem as pessoas naquele universo, são como elas conseguem enxergá-lo, assim como também são o ponto que as conquista. Ou seja, os botões representam o momento da morte e a permanência do morto no além. Todavia o que torna essa ideia mais evidente é a referência ao costume grego de colocar dois dracmas (moeda grega) sobre os olhos do morto, para que ele consiga pagar o Caronte (barqueiro) no além e chegar até seu destino final.

“Os nomes são as primeiras coisas a desaparecer depois que a respiração cessa e o coração para de bater. Nossa memória dura mais que nossa nome”

A Outra Mãe

O outro símbolo é a Outra Mãe representando a própria Morte, como uma figura antropomórfica. É possível perceber que esta personagem é responsável por vigiar, construir e comandar o universo secreto descoberto por Coraline. Ela é quem costura os botões nos olhos, captura as pessoas (os três anjinhos são um exemplo) e as mantêm em seu mundo para sempre. Entretanto o que emancipa essa figura como a Morte é o fato dela precisar consumir novas vítimas para viver, o que é uma maneira subliminar de dizer que a Morte não existe sem os mortais.

“Ela roubou nossos corações e nossas almas, acabou com nossas vidas e então nos jogou aqui. Ela nos esqueceu na escuridão”

Quanta coisa um livrinho para criança pode dizer! A partir dessas quatro intepretações é possível perceber que Neil Gaiman não é apenas um autor que escreve histórias, mas sim um artista que presenteia o mundo com suas maravilhosas obras de arte.

Coraline pode até ser infantojuvenil, mas vai explodir a mente de muito adulto.

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Resenha

Resenha | Mistborn – O Império Final

Primeiro livro da saga evoca críticas contra o sistema ditatorial e o escravismo.

Rodrigo Roddick

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A escravidão é um tema muito recorrente dentro da fantasia porque sempre suscita questões acerca dos sistemas ditatoriais. Mistborn é uma série que leva a questão para o mundo da magia: se o que faz pessoas escravizarem outras é o poder, em um mundo fantástico, quem possui magia é ditador? O Império Final vem levantar essa e outras discussões.

Mistborn – O Império Final é o primeiro livro da série dividida em duas eras, sendo este volume correspondente a primeira. Ele foi escrito por Brandon Sanderson e lançado no Brasil pela editora LeYa em 2014. Sanderson ainda escreveu o livro Elantris pela mesma editora, a série Coração de Aço pela Aleph e o livro Skyward pela Planeta.

Infelizmente, a LeYa comunicou na semana passada que os livros do autor deixarão a casa devido à baixa vendagem nos últimos anos.

O Império Final não é apenas o começo de uma série, ele narra uma história em padrão teleológico (início, meio e fim). Neste primeiro volume, Kelsier, um homem nascido das brumas (quem possui habilidades mágicas relacionadas à queima de metais), encontra outra pessoa com esta mesma característica. Ensinando-a a usar seus poderes ao mesmo tempo que reúne aliados para sua causa, Kelsier dá início ao seu plano de derrotar o Senhor Soberano, o ditador daquela terra.

À primeira vista, o epílogo já dá a premissa que abarca a narrativa inteira. O leitor é apresentado a Kelsier, um atrevido ladrão que derrota um dos senhores de terra que faz parte do sistema ditatorial governado pelo Senhor Soberano. Já no início, Sanderson faz uma crítica ao comportamento dos marginalizados, que sempre estão receosos, afugentados, conformados ou até mesmo apáticos com a realidade que vivem.

“Não tinham queixa. Não tinham esperança. Mal ousavam pensar. Era assim que deviam ser, pois eram skaa. Eram…”

Kelsier livra os cidadãos do domínio desse senhor na tentativa de fazê-los se mexerem e buscarem a própria liberdade. Essa motivação do protagonista já indica sua meta de libertar as pessoas da escravidão, porém com a participação delas.

O autor brilhantemente imprime essa crítica para mostrar com clareza que nenhuma mudança real virá se não for pelas mãos dos oprimidos. Apesar do Senhor Soberano deter um poder mágico, Kelsier mostra que ele não é invencível e, como qualquer um, depende de recursos para manter seu império. É assim que ele vai desmistificando os medos do povo, lembrando-os que são eles o verdadeiro poder do imperador.

“Quando se lê, pode-se aprender muito, sabe?”

A ideia da escravidão está até na própria palavra “skaa”, que define os oprimidos. Ela sugere um sentido fonético para a palavra em português “escravo”. Não se pode afirmar com certeza se Sanderson pensou nisso, pois a palavra para escravo em inglês é “slave”. Entretanto pode ser que ele tenha desenvolvido essa ideia, afinal J. K. Rowling foi uma autora que fez muitos trocadilhos com verbetes em português em Harry Potter.

A reunião de vários setores, incluindo pessoas que também são como Kelsier, revela o pensamento político por trás da luta contra a ditadura. O protagonista não apenas pensa em derrotar o sistema, mas envolve a crise das classes sociais em seu esquema para garantir uma determinação coletiva que enfrente quaisquer tentativas de surgimento de um novo ditador.

“Manipulação está no âmago das nossas interações sociais”

Kelsier

O personagem Senhor Soberano é outro detalhe muito acertado em Mistborn. Durante a narrativa, alguns capítulos trazem as impressões dele antes dele se transformar no ditador temido que governa o império. Essa situação cria uma dúvida no leitor a respeito da transição de caráter dele; dúvida que é respondida brilhantemente pela trama. O autor relembra ao leitor que, em muitas vezes, a aparência de um governante ao público nem sempre corresponde à sua identidade real. Essa reflexão se aplica facilmente aos políticos.

“Até mesmo a blasfêmia o honra. Quando amaldiçoa usando o nome dessa criatura, você o reconhece como seu deus”

Outro ponto interessante do livro é um olhar mais delicado sobre as religiões. Ao criar os feruquemistas — pessoas que conseguem armazenar força, juventude e conhecimento em adereços metálicos — Sanderson faz um desfile de religiões de seu próprio universo. No meio dessas dissertações, ele imprime outra crítica sobre a ditadura, desta vez, mental. Assim o autor revela que quando uma religião é imposta a outra pessoa, ela está sendo escravizada mentalmente por quem a impôs. O mais justo é deixá-la escolher aquela que melhor lhe convier, que lhe faça sentido.

“A crença certa é como uma boa capa, penso eu. Se lhe servir bem, a manterá aquecida e segura. Se lhe cair mal, no entanto, pode sufocar”

A despeito das críticas e pensamentos sociais que o livro traz, Brandon Sanderson também foi um hábil escultor de histórias, no sentido do entretenimento mesmo, quando inventou um novo método de execução de magias.

Em Mistborn, as pessoas que possuem essas habilidades conseguem queimar metais em seu corpo e usar a combustão para realizar um determinador poder, como flutuar, prever o futuro próximo, aumentar a força e outros. Os que possuem essa característica, conseguem queimar apenas um tipo de metal, o que lhes dá apenas um tipo de poder. Mas os nascidos das brumas conseguem queimar todos.

Dessa forma, a magia dentro da história instiga o leitor a investigar sobre seu funcionamento e limitações, porém o mais interessante é que ela não resolve a trama, apenas contribui para que certos desafios sejam vencidos. O que é um ponto bastante positivo em livros fantásticos, que o diferencia, pois muitas literaturas semelhantes recorrem à magia para solucionar todos os impasses, o que fica chato.

Todavia o sentido mais interessante que se encontra na história é sobre a sanidade. Kelsier é interpretado o tempo inteiro como um louco visionário que sonha com coisas impossíveis. Brandon Sanderson não criou essa situação levianamente. Ele usou este artifício para discutir a alienação do cidadão. Ao colocar a sobriedade em um personagem apontado como louco, ele critica como a visão das pessoas está tão deturpada a ponto de considerar loucura aquilo que, na verdade, elas também almejam. Desse modo ele brinca com a superestimada “sanidade” que todo “cidadão-modelo” se orgulha de possuir.

“Pessoas sãs estão dormindo quando as brumas saem”

E por falar em alienação, Sanderson faz uma observação rápida sobre o elemento que comunica todos os setores do sistema: o dinheiro.

“Mas, o que é dinheiro? Uma representação física do conceito abstrato do esforço”

Mistborn – O Império Final é um livro que possui suas excentricidades, mas jamais esquece o real interesse de quem lê: o ser humano. Uma característica recorrente nas narrativas de Sanderson.

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HQs

Resenha | Coragem

HQ que apresenta a importância de estar com a saúde mental em dia.

Mylla Martins de Lima

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Raina Telgemeier é uma cartunista norte-americana responsável por um grande acervo de livros para o público infanto-juvenil. Coragem não é diferente. A editora Intrínseca trouxe sua autobiografia para o Brasil em uma edição linda e bem colorida.

HQ Coragem: uma história para quem tem medo - Geekness

Em uma noite, Raina acordou com uma dor estranha na barriga, mas como sua mãe havia passado pela mesma coisa, talvez não fosse nada grave… apenas uma virose. O problema é que a dor não passava e, junto dela, vinha o medo. Depois de diversos exames terem dado “OK”, seus pais perceberam que não se tratava de uma doença física e, por isso, procuraram ajuda psicológica.

A HQ foca no público que mais precisa desse apoio, quem está passando pela aterrorizante fase da puberdade. Ela normaliza o medo, mas estimula os jovens a não passarem por esse caminho turbulento sozinhos e a confiarem em seus responsáveis, que farão o possível para ajudar.

Essa transição inevitável pode vir acompanhada de ansiedade e, se não tratada com devida seriedade, é possível que algo mais complexo aconteça, chegando a afetar seu estado físico. A autora manda um recado para jovens e adultos usando sua própria experiência, por isso uma leitura em família seria incrível.

Coragem, de Raina Telgemeier #Resenha - Leitora Compulsiva

A ideia de trabalhar a identidade da personagem também foi ótima. Raina era uma menininha de 10 anos, feliz, que amava assistir TV e desenhar como qualquer uma de suas amigas da escola. Isso faz com que o leitor entenda que o problema não tem a ver com estereótipos.

A palavra estresse não é de uso exclusivo dos adultos. Lidar com um ambiente conturbado, seja em casa ou na escola, além de mudanças corporais e mentais, são desgastantes para todos. Essa grafic novel pedagógica apresenta esse argumento de forma muito clara para que até os mais leigos no assunto compreendam que não se trata de um problema desprezível.

Coragem fala especificamente sobre emetofobia, o medo de vômito, mas o quadrinho serve como exemplo para muitos outros tipos de sofrimentos causados pela ansiedade, que é considerado atualmente um dos transtornos mais comuns.

A prova da importância de Coragem é sua indicação ao Prêmio Eisner 2020, a maior premiação quando o assunto é histórias em quadrinho. A HQ está concorrendo às categorias de Melhor Roteirista e Artista e Melhor Publicação Infantil.

Ler é Bom, Vai! Coragem, de Raina Telgemeier

O quadrinho é cheio de lições para a família toda. Trata de um assunto sério, mas é uma leitura divertida e muito didática. Raina encoraja qualquer pessoa a abrir seu coração e pedir ajuda, e seu depoimento no final do livro é muito sincero e acolhedor.

Coragem é mais que desenhos coloridos com traços infantis, é um arauto de como enfrentar seus medos, seja ele qual for.

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