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Resenha

Resenha: “Stranger Things – Raízes do Mal”

Romance revela acontecimentos pré-temporada 1 e aborda temas como feminismo e homem x natureza.

Rodrigo Roddick

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Como Eleven nasceu? Dr. Brenner é seu pai de verdade? Como a mãe de Eleven chegou ao experimento? Eles ainda estão vivos? As perguntas acerca do passado de El atravessam a cabeça de todos os fãs de Stranger Things. Em Raízes do Mal essas dúvidas são respondidas.

Stranger Things – Raízes do Mal chegou ao Brasil pela editora Intrínseca em maio deste ano. O romance foi escrito por Gwenda Bond, uma autora conhecida por misturar elementos sobrenaturais em suas histórias juvenis e infanto-juvenis. Ela faz um belo trabalho nesta obra por narrar os acontecimentos de forma comedida e com cortes bem delineados, o que era de se esperar de uma jornalista.

A história se passa entre os anos 1969 e 1970, antes da 1ª temporada da série, e começa com um acontecimento emblemático desta época: a visita do homem à lua – que vai marcar o tônus da narrativa. No geral, o romance trata sobre a vida dos pais de Eleven, o casal Terry e Andrew. Terry tem a determinação de “mudar o mundo”, contribuir com a humanidade através de um grande feito, por isso quando sua amiga Stacey fala sobre os experimentos acontecendo no Laboratório Nacional de Hawkings, ela rapidamente assume seu lugar. Lá, Terry não apenas faz três novos amigos – Alice, Glória e Ken – como conhece um homem qual ela saberia mais tarde se tratar da face do próprio mal: Dr. Brenner, o “pai” de Eleven.

Dr. Brenner, que nesta época sequer imaginava a existência de El, é um homem de visão, cruel e arrogante. Para ele, obter avanços nos projetos Índigo e MkUltra é o que importa. Ele chega ao Laboratório de Hawkings com Kali – a menina que cria ilusões – a qual insiste em chamar de Eight para criar uma distância entre eles. A história já brinda o leitor com o conflito do doutor com a Kali, pois ele precisa dela para avançar em seus experimentos, mas para controlá-la percebe que deve assumir uma representação paterna, o que ele detesta fazer.

Aproveitando a vida singela das pessoas naquela época, Gwenda Bond captura e aborda a discussão sobre temas socais que até hoje são discutidos, como o patriarcado. O leitor atento já percebe que este assunto vai ser muito explorado quando se depara com a maioria de personagens femininos e, não por acaso, com um antagonista masculino. Além do embate entre Terry e Brenner, existe uma briga milenar entre a mulher e o homem.

O machismo é retratado de maneira mais clara e muitas vezes emancipado pela lei – criada por quem? Homens. É possível identificá-lo logo de início nas exigências para participar do projeto: tem que ser obrigatoriamente mulher. Por quê? Os homens acreditavam na época que a mulher possuía uma limitada capacidade intelectual e que, por isso, deveriam obedecer aos homens.

“Mulheres e seus corações moles. Não resistem a uma criança”

Ao ser inserido na trama do livro, Brenner incorpora a ideia que pode controlá-las e, como um “bom cientista”, trata elas como cobaias. Entretanto ele não quer qualquer pessoa, está interessado naquelas de maior potencial. A autora ilustra nesse ímpeto como o homem estrutura e mantém a supremacia masculina, pois ao dominar “a mais habilidosa mulher” significa que ele deve governar o mundo a sua maneira.

“Ótimo! Não tolero achismos e suposições. Estamos aqui para ultrapassar as fronteiras da capacidade humana. Não quero ficar estudando humanos insignificantes. Eles não nos darão resultados extraordinários”

Há apenas um homem entre elas, Ken. O motivo dele estar ali é porque possui habilidades especiais, é vidente. Mas, é claro, existe outra razão… mais uma vez tocando em um ponto sensível da sociedade.

Em várias partes do livro, Terry precisa sobreviver a um mundo construído pelo e para o homem, em que suas ações rebeldes não passam de “capricho de mulher” ou, em casos mais extremos, uma infração legal.

“Garotas decentes não engravidam antes de casar”

Enquanto a história vai se desenrolando, uma frase fica sobrevoando a mente do interlocutor. Quanto vale a vida humana? As pessoas são tratadas por Brenner como peças de um tabuleiro que deve servir aos seus propósitos, mais nada. Ele não se importa com os limites naturais de um indivíduo, apenas com a necessidade de controlar sua mente.

“Manipular uma cabeça fraca não é nada. Precisamos daquelas com potencial”

Esta é a grande verdade gritada nos diversos produtos culturais da atualidade: o homem quer dominar o homem. Parece uma frase sem sentido ou banal, mas nela reside a ideia que a humanidade sempre desenhou sobre o mundo, a ilusão de ordem. O que nós, seres humanos, tentamos a todo custo é controlar nosso “eu selvagem”. Queremos mandar em nós mesmos. O homem quer doutrinar a natureza. 

“Nosso corpo, no fundo, é só mais uma máquina” 

Ou seja, na raiz do impasse abordado no livro encontramos um conflito muito antigo entre o homem e a natureza; a teimosia do homem em não aceitar que jamais vai dominá-la, nem a humana nem a geral.

Não é à toa que essa atitude é representada por Dr. Brenner, um cientista, uma figura muitas vezes apontada como um subversor da natureza e não um mantenedor de sua beleza e longevidade.

“Os caras deveriam trabalhar para gente, entende? Para o nosso bem”

A narrativa também brinca e diverte o leitor ao fazer referências ao Senhor dos Anéis de Tolkien para reafirmar a intenção do homem em controlar a natureza. Elas aparecem dentro da trama nas falas das personagens que estão lendo a aventura de Frodo e Sam. Para os leitores atuais, essa brincadeira de Gwenda Bond pode soar um tanto batida, por isso é importante contextualizar. Naquela época, Senhor dos Anéis era bastante popular entre a galera jovem e, junto das bandas de rock e os shows em Woodstock, constituem a cultura consumida pelas pessoas de 1969. 

Além do Laboratório de Hawkings, há outras referências aos elementos da série, como por exemplo os demogorgons. Alice, uma das colegas de Terry e também cobaia de Brenner, desenvolve algumas visões do futuro e, em algumas delas, consegue enxergar o monstro… 

“O tipo de criatura que surgiria se alguém desmontasse uma forma de vida e remontasse tudo errado. Braços longos demais. Uma cabeça parecida com uma flor escura”

E uma garotinha “careca” com poderes telecinéticos…

“A menina arrancou os cabos da cabeça. Alice notou um número no antebraço dela. 011”

A visitação do mundo escuro que é “lugar nenhum e também todos os lugares” fica por conta de Terry, Alice e Kali. Elas protagonizam algumas conversas neste ambiente.

A trama se encerra com o último confronto entre as cobaias e o Dr. Brenner através de um plano criado por Terry. Os resultados deste acontecimento revelam como as coisas chegaram até o início de Stranger Things. Quando o leitor fecha o livro, fica sentindo o gostinho de ter ganho um presente… o nascimento de Jane, nome real de Eleven.

A 3ª temporada de Stranger Things estreia em 4 de julho, na Netflix.

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