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Crítica – A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell “A casca é linda, mas falta a alma”

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Quando um estúdio mexe em uma obra já existente ele tem duas opções: acrescentar algo à discussão ou não correr riscos e encaixar o material em uma fórmula segura para atrair espectadores e ganhar um rio de dinheiro. A ideia e o universo de Ghost in the Shell são muito atraentes e consigo entender porque quiseram fazer uma versão americana desse filme, mas infelizmente ele se encaixa na segunda opção. O problema é o que eu já imaginava pelos trailers: Hollywood não tem culhão pra fazer Ghost In The Shell como ele devia ser.

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Em um futuro próximo, a humanidade começou a se fundir fisicamente com a tecnologia. Próteses mecânicas fazem parte do novo modo de vida e são usadas para aumentar significantemente a capacidade humana. Nesse cenário surge Major (Scarlett Johansson), a primeira de sua espécie. Nascida humana, ela sofreu um grave acidente e somente seu cérebro sobreviveu, sendo inserido em uma casca cibernética feita da mais alta tecnologia disponível. Nesse mundo onde o ciberterrorismo é uma das maiores ameaças, Major é um super soldado em um time de elite cuja função é garantir a segurança das mentes mais importantes da sociedade.

O material original vem do Japão. O mangá foi publicado entre 1989 e 1991 e ganhou um filme animado em 1995 de onde “A Vigilante do Amanhã” se baseou para essa nova versão. De atmosfera dark e deprimente, a versão original de Ghost In The Shell propõe reflexões filosóficas e éticas ao espectador sobre vida, inteligência artificial, o futuro da humanidade e a nossa relação com a tecnologia sem nunca trazer respostas. Pelo contrário, cada vez que assisto ao original ele me traz mais inquietamento. Inspirou muitas obras que vieram depois, sendo “Matrix” das irmãs Wachowski a mais famosa.

Com um material desses na mão, o mérito de “A Vigilante do Amanhã” é conseguir reproduzir bem a atmosfera do anime, desde a ambientação da decadente metrópole fictícia japonesa de New Port até os mínimos detalhes que compõem o universo Ghost in the Shell como as próteses, os robôs, a tecnologia em geral e os figurinos dos personagens. Os efeitos visuais são incríveis e vão agradar tanto fãs da franquia quanto novatos, o espectador realmente é sugado pra dentro desse universo. As melhores cenas de ação parecem ter sido tiradas direto do anime, com shots feitos de forma quase idêntica ao original, mas que perdem força à mercê do novo roteiro.

Major no anime e no filme interpretada por Scarlett Johansson

Realmente não me incomoda terem dado um ar mais hollywoodiano ao filme, com muito mais cenas de ação – que inclusive são o ponto alto do filme – contrastando com a vibe mais parada e reflexiva do anime. O que faz o filme se perder é o roteiro bobo e infantilóide de Jamie Moss e William Wheeler, que além de tirar toda a reflexão muitas vezes tenta emulá-la em falas mastigadas e cuspidas pelos personagens de forma covarde, fazendo o espectador de idiota. O roteiro ainda aposta em sentimentalismo barato para tentar camuflar as soluções ridículas às quais reduziu os personagens, principalmente na história de origem da Major, que ao ser revelada arrancou risinhos desconfortáveis de vários críticos na cabine de imprensa que estivemos.

Os personagens são reduzidos meramente à unilateralidade de vilões x mocinhos, não trazendo complexidade suficiente para se sustentarem. Na minha opinião, o único que ficou mais fiel à sua personalidade original foi Batou (Pilou Asbæk). As atuações são corretas, Scarlett Johansson não faz nada incrível com sua Major mas também não decepciona. O Kuze de Michael Pitt me parece interessante principalmente pela sua composição corporal e trejeitos, mas o roteiro estraga o personagem. O filme parece mais preocupado com o background de Major do que com o que ela representa nessa nova sociedade e o final piegas e cheio de frases de efeito revirou meu estômago, principalmente pela covardia comparado com a mensagem nal do original. A única coisa meramente instigante nesse filme é o que veio diretamente do anime, e isso foi a única coisa que me manteve presa até o final.

“A Vigilante do Amanhã” pode acabar pegando novos espectadores desavisados por esse motivo, mas não acrescenta em nada para quem conhece o original. Eu gostaria de poder dizer que pelo menos como filme solo ele se sustenta, mas o roteiro é inafiançável.

“A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell” estreia nesta quinta-feira (30) nos cinemas.

estudante de jornalismo e apaixonada pelo universo Disney. Tem um blog chamado Sugar Rush onde fala sobre cultura pop e viagens. Fundadora do blog Sugar Rush

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