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Crítica | Em um Bairro de Nova York “Uma pobre tentativa de valorização da cultura latina”

Carlos Ferreira
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Carlos Ferreira
Carlos Ferreira, professor e pesquisador da área de educação, criador de coisas e puxador de assuntos na internet desde 2011, blogueiro (de site em site) desde...

Em um Bairro de Nova York (In the Heights) conta a história de Usnavi (o Valdisnei estadunidense) e de uma comunidade latina que reside no bairro Washington Heights, em Nova York, nos Estados Unidos. O sonho de Usnavi é voltar para sua terra natal, onde ele passou os melhores anos de sua vida.

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Sinopses à parte, o filme fala sobre sonhos – percebemos pela história de Usnavi – e sobre Dreamers, filhos de imigrantes ilegais que chegaram no país ainda crianças, e como eles fizeram sua vida e construíram uma rede de apoio latino que reforça sua cultura e suas tradições.

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Contudo, há, no filme, uma clara percepção de que os Estados Unidos é o único lugar possível para que todos possam viver com dignidade, já que o sonho dos imigrantes é ter uma vida melhor e garantir isso para sua família. E nessa perspectiva, há um reforço de que nenhum lugar da América Latina tem o mesmo potencial pra isso.

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Mas espera, você não disse que o sonho de Usnavi era voltar para sua terra natal, porque lá ele passou os melhores dias da sua vida? Disse, mas enquanto ele persegue esse sonho, o filme reforça estereótipos de classe e de grupos étnicos, romantizando a pobreza e enaltecendo que a vida é difícil e que você pode conseguir o que quer, se lutar por isso.

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Lutar para ocupar espaços é um dos pontos importantes do filme, e isso vai aparecer em várias situações ao longo do musical. A romantização da pobreza e a luta por pertencimento aproxima o pobre do filme com o pobre do cinema, e o cenário contribui bastante com a criação desse ideário, a começar pelos alimentos que aparecem em cena.

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Ao mesmo tempo, há uma incerteza quanto ao tempo cronológico do filme. No começo, eu poderia jurar que se passava nos anos 1990, principalmente porque a cultura latina é reforçada nos móveis, nos salões de beleza, nas roupas, enfim, há uma superexploração desses artefatos e isso remete mais a uma ideia de que latinos vivem presos em novelas mexicanas/chilenas e que a tecnologia não é acessível mesmo nos Estados Unidos.

Apesar de ser uma possibilidade, a tecnologia é deixada de lado no filme para que haja mais um reforço: a história oral, ou seja, para que os registros históricos que mantém as tradições vivas permaneçam na memória das pessoas. Você notará pelos celulares com quatro câmeras traseiras subutilizados. Esta é mais uma estratégia de se reforçar os valores hispânicos.

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A diversidade do elenco, que foge do padrão hollywoodiano de passibilidade, traz nomes que ganharam destaque recentemente, como Anthony Ramos (Hamilton) e Leslie Gracie, além de nomes já conhecidos, como Olga Merediz (Orange is the new Black) e Jimmy Smits (Star Wars).

Em relação à construção do filme, há uma surpresa em relação ao cenário. Apesar da necessidade reforçada de vida em comunidade e pertencimento, não posso deixar de reconhecer que o bairro Washington Heights acolheu a população latina, dentre cubanos, porto-riquenhos e Dominicanos, e a riqueza do filme fica nos detalhes como prédios, comidas e a aproximação da realidade novaiorquina, como as linhas de metrô e o transporte público (muito presente na vida do pobre).

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Ao mesmo tempo que o filme tem músicas incrivelmente bem escritas, atreladas a cenas e danças incríveis (alô abuelita) e que mexem com o nosso emocional, o longa traz músicas entediantes que poderiam ser diálogos não-cantados (metade do filme) e diálogos não-cantados medíocres que poderiam ser melhor construídos.

Se você gosta de flash mobs, vai gostar bastante do filme. As canções lembram muito músicas de artistas pop da contemporaneidade – talvez seja mais um reforço dos Estados Unidos como melhor lugar para tudo –, como Beyoncé, e tem uma pitada de canções da Disney (Aladdin, Rei Leão) e uma lembrança do musical Família Addams, adaptado para a Broadway.

Por fim, parece que a grandiosidade do criador de Hamilton (2020) e do diretor de Podres de ricos (2018) existe, mas eles estão muito cansados para explora-la no filme.

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O bom trabalho é demonstrado pelos movimentos de câmera, algumas danças e na fotografia do longa-metragem, mas não sei se vale o preço de um ingresso – ou 2h23 do seu tempo.

Em um Bairro de Nova York estreia dia 17 de junho.

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