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Crítica | Em um Bairro de Nova York “Uma pobre tentativa de valorização da cultura latina”

O musical Em um Bairro de Nova York romantiza a pobreza e consegue até mesmo reforçar estereótipos dos povos latinos, quando tenta (sem sucesso) fazer uma homenagem a eles.

Em um Bairro de Nova York (In the Heights) conta a história de Usnavi (o Valdisnei estadunidense) e de uma comunidade latina que reside no bairro Washington Heights, em Nova York, nos Estados Unidos. O sonho de Usnavi é voltar para sua terra natal, onde ele passou os melhores anos de sua vida.

Sinopses à parte, o filme fala sobre sonhos – percebemos pela história de Usnavi – e sobre Dreamers, filhos de imigrantes ilegais que chegaram no país ainda crianças, e como eles fizeram sua vida e construíram uma rede de apoio latino que reforça sua cultura e suas tradições.

Contudo, há, no filme, uma clara percepção de que os Estados Unidos é o único lugar possível para que todos possam viver com dignidade, já que o sonho dos imigrantes é ter uma vida melhor e garantir isso para sua família. E nessa perspectiva, há um reforço de que nenhum lugar da América Latina tem o mesmo potencial pra isso.

Mas espera, você não disse que o sonho de Usnavi era voltar para sua terra natal, porque lá ele passou os melhores dias da sua vida? Disse, mas enquanto ele persegue esse sonho, o filme reforça estereótipos de classe e de grupos étnicos, romantizando a pobreza e enaltecendo que a vida é difícil e que você pode conseguir o que quer, se lutar por isso.

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Lutar para ocupar espaços é um dos pontos importantes do filme, e isso vai aparecer em várias situações ao longo do musical. A romantização da pobreza e a luta por pertencimento aproxima o pobre do filme com o pobre do cinema, e o cenário contribui bastante com a criação desse ideário, a começar pelos alimentos que aparecem em cena.

Ao mesmo tempo, há uma incerteza quanto ao tempo cronológico do filme. No começo, eu poderia jurar que se passava nos anos 1990, principalmente porque a cultura latina é reforçada nos móveis, nos salões de beleza, nas roupas, enfim, há uma superexploração desses artefatos e isso remete mais a uma ideia de que latinos vivem presos em novelas mexicanas/chilenas e que a tecnologia não é acessível mesmo nos Estados Unidos.

Apesar de ser uma possibilidade, a tecnologia é deixada de lado no filme para que haja mais um reforço: a história oral, ou seja, para que os registros históricos que mantém as tradições vivas permaneçam na memória das pessoas. Você notará pelos celulares com quatro câmeras traseiras subutilizados. Esta é mais uma estratégia de se reforçar os valores hispânicos.

A diversidade do elenco, que foge do padrão hollywoodiano de passibilidade, traz nomes que ganharam destaque recentemente, como Anthony Ramos (Hamilton) e Leslie Gracie, além de nomes já conhecidos, como Olga Merediz (Orange is the new Black) e Jimmy Smits (Star Wars).

Em relação à construção do filme, há uma surpresa em relação ao cenário. Apesar da necessidade reforçada de vida em comunidade e pertencimento, não posso deixar de reconhecer que o bairro Washington Heights acolheu a população latina, dentre cubanos, porto-riquenhos e Dominicanos, e a riqueza do filme fica nos detalhes como prédios, comidas e a aproximação da realidade novaiorquina, como as linhas de metrô e o transporte público (muito presente na vida do pobre).

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Ao mesmo tempo que o filme tem músicas incrivelmente bem escritas, atreladas a cenas e danças incríveis (alô abuelita) e que mexem com o nosso emocional, o longa traz músicas entediantes que poderiam ser diálogos não-cantados (metade do filme) e diálogos não-cantados medíocres que poderiam ser melhor construídos.

Se você gosta de flash mobs, vai gostar bastante do filme. As canções lembram muito músicas de artistas pop da contemporaneidade – talvez seja mais um reforço dos Estados Unidos como melhor lugar para tudo –, como Beyoncé, e tem uma pitada de canções da Disney (Aladdin, Rei Leão) e uma lembrança do musical Família Addams, adaptado para a Broadway.

Em um Bairro de Nova York

Em um Bairro de Nova York
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As luzes se acendem em Washington Heights… O cheirinho de um cafecito caliente paira no ar, na saída da estação de metrô da Rua 181, onde um caleidoscópio de sonhos mobiliza essa comunidade vibrante e muito unida. No meio de tudo, temos o querido e magnético dono de uma mercearia, Usnavi (Anthony Ramos), que economiza cada centavo do seu dia de trabalho enquanto torce, imagina e canta sobre uma vida melhor.
As luzes se acendem em Washington Heights… O cheirinho de um cafecito caliente paira no ar, na saída da estação de metrô da Rua 181, onde um caleidoscópio de sonhos mobiliza essa comunidade vibrante e muito unida. No meio de tudo, temos o querido e magnético dono de uma mercearia, Usnavi (Anthony Ramos), que economiza cada centavo do seu dia de trabalho enquanto torce, imagina e canta sobre uma vida melhor.
3,0 rating
3/5
NOTA FINAL
Neutral

Por fim, parece que a grandiosidade do criador de Hamilton (2020) e do diretor de Podres de ricos (2018) existe, mas eles estão muito cansados para explora-la no filme.

O bom trabalho é demonstrado pelos movimentos de câmera, algumas danças e na fotografia do longa-metragem, mas não sei se vale o preço de um ingresso – ou 2h23 do seu tempo.

Em um Bairro de Nova York estreia dia 17 de junho.

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