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Fernanda Fernandes

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É notável como o filme de Spike Lee retrata através de uma história real, os
diversos comportamentos das pessoas perante o racismo e a diversidade. Por conta
disso, neste texto – assim como feito ao usar um personagem de “Uma Mulher
Fantástica”
para identificar o meu lugar de fala dentro de uma realidade que não vivo –
acho válido ressaltar que é uma análise a partir do ponto de vista de uma mulher branca,
que se ofende com todos os ideais de supremacia pregados pela Ku Klux Klan, mas não
conhece na vivência as situações principais abordadas pelo longa-metragem.

Em “Infiltrado na Klan”, baseado no livro de mesmo nome e escrito pelo próprio
Ron Stallworth, mergulhamos na história do policial, vivido por John David
Washington, que, além de ter sido o primeiro policial negro da polícia de Colorado
Springs, se infiltrou na organização supremacista branca KKK no final dos anos 70. É
essencial perceber como o filme retrata a dualidade de Ron, não só como negro e
americano, mas como negro e policial e as situações de racismo velado vividas por ele.

Stallworth é movido de departamento em departamento, sabendo que o que ele
realmente queria era ser um detetive infiltrado, o que consegue ao ser escolhido para
cobrir um evento da União Estudantil Negra. Mais tarde, ao ser realocado para o
departamento de inteligência, Ron liga para um telefone de um anúncio da KKK e se
passa por uma pessoa branca com um discurso racista. Ao lado de Flip Zimmerman
(Adam Driver), que é judeu, se infiltra na Klan em busca de saber qual era o nível de
ameaça da organização. No final, Ron chega a ‘fazer amizade’ com David Duke
(Topher Grace), líder da KKK na época e descobre até mesmo soldados do exército dos
Estados Unidos que faziam parte da organização.

Um dos personagens mais incômodos é o Chefe Bridges (Robert John Burke)
justamente por como ele reproduz o racismo velado em alguns momentos, podemos
reparar que em aspectos mais explícitos e cruéis o personagem já carrega uma
desconstrução. No entanto, em momentos como quando ele critica Ron por não
conseguir se controlar perto de um policial extremamente racista e ao mandar Stallworth para ser o guarda-costas de David Duke, arriscando a operação dele e de Flip como
policiais infiltrados, Bridges mostra que todos somos racistas e, mesmo repudiando os
atos mais explícitos e as falas mais ofensivas, temos muito para aprender.

Agora, falando de Patrice (Laura Harrier), a presidente da União Estudantil
Negra, e Ron, os dois personagens trazem duas formas bastante válidas de ativismo e
luta pela igualdade. Patrice, através das manifestações, da união e do conhecimento e
Ron, por meio da quebra de barreiras e da ação. Uma lição a ser ouvida, a partir da
relação destes personagens, e que serve para todos os movimentos que lutam por
igualdade, é que ambos os tipos de ativismo precisam estar unidos e fazer a diferença
juntos.

“Power to all the people” é com toda certeza o lema deste filme e da nossa realidade para combater a brutalidade policial e o genocídio negro que é retratado diversas vezes no filme, trazido na figura do policial Landers (Frederick Weller), ao assediar Patrice enquanto levava Kwame Ture (Corey Hawkins), que tinha sido convidado para falar com a União Estudantil Negra, para o hotel.

Flip Zimmerman é a representação de uma pessoa oprimida tomando consciência da opressão e se sentindo perdido sobre como entender esta lógica e lutar contra isso. Para ele, assim como para Ron, com toda a certeza verbalizar e escutar todo o preconceito reproduzido pela KKK foi doloroso. Então, após um tempo infiltrado na KKK, Flip começa a pensar sobre ser judeu e como as pessoas que participam daquela organização querem machucar pessoas como ele. Este ponto leva Zimmerman a entender que o perigo está mais perto do que ele imaginava e, pior, essas pessoas se julgam pessoas boas, pacíficas e completamente normais.

Definitivamente o momento mais interessante do filme é a sequência de cenas em que vemos a cerimônia de iniciação da Klan protagonizada por David Duke na qual todos assistem o filme Birth of a Nation que faz uma apologia clara ao racismo, e uma palestra de Jerome Turner (Harry Belafonte) contando sobre o momento em que viu um colega ser injustamente condenado por um estupro e torturado pela população de maneiras inimagináveis. Mostrando duas narrativas completamente diferentes uma da outra, havendo ‘duas’ verdades como se pedisse para o espectador escolher um lado. Acontece que, a narrativa da Klan é visivelmente fundada em ideias rasas e um completo discurso de ódio. Enquanto, a narrativa de Turner pede justiça.

Uma coisa que a sociedade precisa engolir é que o racismo é um problema de total responsabilidade dos brancos, e já está na hora de pessoas brancas tomarem seus devidos lugares de fala e de escuta para fazer a sua parte na resolução e reparação histórica do preconceito. Qualquer movimento que pede justiça, seja lá de que forma peça, como os movimentos negros, movimentos feministas, movimentos contra a homofobia, não devem ser colocados na mesma balança que movimentos como a KKK.

Esta verdade nos leva a falar sobre David Duke e a tentativa de legitimar a supremacia da KKK a partir da tentativa de desvencilhar a organização daquelas pessoas que são ignorantes a ponto de não serem mais aceitas na sociedade. Isto é uma tentativa de reviver os ideais Klan e conseguir que a organização chegue a política. Obviamente, com um discurso supremacista mais leve Duke alcança mais pessoas, como aconteceu em 2017 com as marchas na Virginia e o lema “White Lives Matter” para rebater o movimento Black Lives Matter.

Foi justamente este discurso mais leve que colocou pessoas como Donald Trump e Jair Bolsonaro na liderança de um país, afinal, quando o culpado da sua situação é um alvo claro e você quer destruí-lo ao invés de resolver o seu problema individual, o ódio se torna a resposta. É inacreditável como muitas pessoas brancas ainda sentem a necessidade de preservar a herança delas, que nunca foi destruída, e reafirmar privilégios que sempre tiveram. Acredito que já fizemos isso por tempo demais. Chega.

Infiltrado na Klan esta disponível no Telecine.

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Crítica | Alérgica a WiFi “diverte, encanta e emociona”

Longa filipino discute de forma lúdica sobre nossos relacionamentos interpessoais e como as mídias sociais os afetaram.

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É ponto comum dizer que as redes sociais mudaram a forma como nos comunicamos, nos expressamos socialmente. Já temos uma geração que só consegue se relacionar com o mundo por meio de uma selfie ou um tweet e, graças à situação calamitosa causada recentemente pela pandemia, isso se acentuou nos últimos meses. Claro que tudo isso se reflete na vida afetiva das pessoas, tendo aí seus prós e contras… Mas em muitos casos, o que (ou quem) precisamos em nossas vidas não está nem a um clique na tela de um smartphone: basta olhar pro seu lado.

Lançado originalmente em 2018 nas Filipinas, Alérgica a WiFi (Ang Babaeng Allergic Sa WiFi) aborda justamente esse ponto. Num primeiro momento retratado como um matinê adocicado voltado para o público jovem, o longa escrito e dirigido por Jun Robles Lana foge um pouco dessa linha ao se utilizar inteligentemente desse pano de fundo para fazer sua crítica social, marca registrada do cineasta. No caso, é a reflexão sobre os nossos relacionamentos interpessoais e como as mídias sociais os afetaram.

Nesta fábula moderna, somos apresentados ao introvertido nerd Áries (Jameson Blake). Avesso às redes sociais, ele se apaixona por Norma (Sue Ramirez) desde a primeira vez que a vê em sua faculdade. Incapaz de se declarar seus sentimentos à jovem devido a sua timidez, o garoto passa a nutrir um amor platônico e admirá-la secretamente. No entanto, o convívio entre os dois começa a ficar mais frequente quando Norma começa a namorar ninguém menos que Leo (Markus Paterson), o irmão mais velho de Áries e um dos jogadores mais populares do time de basquete da universidade.

Para completar, a garota começa a apresentar sintomas de uma doença rara: o Transtorno de Hipersensibilidade Eletromagnética (EHS), o que a faz ficar extremamente debilitada quando está próxima de ambientes que tem sinal de WiFi. A situação faz com que a jovem se mude para a casa de sua avó no interior do país para assim escapar de sua sina e iniciar sua reabilitação. Esse afastamento forçado da tecnologia faz com que Norma perceba que a felicidade pode estar nas coisas mais simples e bem mais próxima do que ela enxergava anteriormente.

Em primeiro lugar, é preciso louvar a química vista no trio principal. Sue é extremamente cativante e magnetiza pelo olhar as atenções toda vez em que está em cena. Além disso, a atriz soube flutuar por todas as emoções vividas por Norma ao longo de seu processo de amadurecimento – desde questões como lidar com o novo casamento de sua mãe, a deslealdade de sua melhor amiga Margaux (interpretada por Adrianna So, a Pearl da websérie Gameboys) e seu relacionamento confuso com os dois irmãos Miller. Ramirez consegue transmitir cada sentimento, cada conflito da personagem de forma competente, escapando do estereótipo de protagonista feminina em um drama teen.

Já Jameson nos traz um Áries muito retraído, com poucas expressões. No entanto, o garoto se transforma quando a cena pede um sentimento mais aflorado, principalmente quando contracena com Sue. E a câmera parece estar sempre apaixonada por Blake, procurando constantemente pegar seus melhores ângulos, deixando sua presença ainda mais forte.

E mesmo não tendo os mesmos recursos que seus amigos de tela, Paterson não faz feio e interpreta Leo de maneira honesta. Apesar de parecer duro demais – e mesmo inseguro – em algumas partes do filme, o jovem mostrou potencial ao estrelar uma forte cena na reta final ao lado de Blake. Como sua primeira experiência no cinema, Markus não decepciona e apresenta que é capaz de evoluir cada vez mais.

Vale destacar também a atuação de Angeli Nicole Sanoy (também de Gameboys) como Macha, a melhor amiga de Áries. A jovem atriz joga energia em suas cenas, sendo a voz da sensatez em muitas delas – mesmo quando isso envolve as linhas mais engraçadas do roteiro. Macha é aquele tipo de amiga que todo mundo precisa e Sanoy a defende em tela brilhantemente.

Mesmo soando clichê algumas vezes e descartando alguns personagens secundários sem dar muitas explicações, o tom agridoce do filme o diferencia de outras comédias românticas. Seu roteiro aborda com leveza e doçura os temas propostos, mas sem cair no melodrama visto em produções similares ou mesmo em telenovelas. Ele consegue, juntamente com uma direção precisa, nos transportar para aquele pequeno universo e nos fazer se importar com seus personagens. Somando a isso uma fotografia absurdamente linda, canções que realçam o clima (mérito da cantora Keiko Necesario) e com uma trilha sonora que nos comove, a produção entrega o que propõe com louvor.

Com uma linguagem jovem e universal, o trabalho de Robles Lana e sua equipe transmite uma mensagem importante nos tempos atuais e merece ser descoberto. Ironicamente, Alérgica a WiFi fala sobre conexões reais, onde se deixa o mundo virtual de lado e abraça as pequenas (e preciosas) coisas que a vida oferece. No fim, não vai ser uma publicação nas redes sociais que fará você ter a real experiência de amar e ser amado… É viver intensamente cada minuto que te dá esse privilégio.

Alérgica a WiFi está disponível na Netflix.

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cinema

O Diabo de Cada Dia, longa com Tom Holland e Robert Pattinson, ganha trailer

Longa chega no início de setembro na Netflix.

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Netflix liberou nesta quinta (13) o trailer de O Diabo de Cada Dia, filme escrito e dirigido por Antonio Campos e protagonizado por Tom Holland (Homem-Aranha: Longe de Casa) e Robert Pattinson (Tenet). Assista:

Produzido por Randall Poster, Riva Marker e Jake Gyllenhaal, a trama adapta para as telas a obra de Donald Ray Pollock e é ambientada em Knockemstiff, uma cidade rural localizada no Estado americano de Ohio, e acompanhará um grupo de sombrios e estranhos personagens ao longo de duas décadas, incluindo um casal de serial killers e um xerife corrupto.

Além da dupla protagonista, o filme conta com Sebastian Stan (Capitão América: Guerra Civil), Mia Wasikowska (Alice no País das Maravilhas), Bill Skarsgard (Castle Rock), Eliza Scalen (Objetos Cortantes), Mia Goth (Suspiria), Riley Keough (Mad Max: Estrada da Fúria), Jason Clarke (Planeta dos Macacos) e Tracy Letts (The Sinner) em seu elenco.

O Diabo de Cada Dia estreia na Netflix em 16 de setembro.

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cinema

Ray Fisher acusa Geoff Johns de ameaçar destruir sua carreira

Liga da Justiça Snyder Cut vai estrear na HBO Max em 2021.

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As situações da Liga da Justiça e seus bastidores não param de surgir, agora Ray Fisher acusa o produtor do filme e roteirista de quadrinhos da DC Comics, Geoff Jhons, ameaçar acabar com a sua carreira se denunciasse algo sobre Joss Whedon.

Fisher que interpretou o personagem Cyborg no filme foi o primeiro e até agora único grande personagem nestas denuncias que envolvem o diretor de Vingadores Joss Whedon e produtores do filme Liga da Justiça.

Agora o ator volta novamente a rede social do Twitter, relatando que Geoff Jhons, que também é roteirista de inúmeros quadrinhos da DC Comics como também da série Star Girl queria passar panos quentes nas atitudes do Whedon, como também ameaçou a sua carreira.

Durante as refilmagens para a Liga da Justiça, Geoff Johns me convocou ao seu escritório para menosprezar e admoestar minhas (e as de meu agente) tentativas de levar queixas até a cadeia de comando adequada. Ele então fez uma ameaça velada à minha carreira. Este comportamento não pode continuar.

Neste mesmo post, fãs ilustraram que o Whedon e Jhons cortaram praticamente todos os artores negros e de outras etnias para terem destaque no longa, assim foi como Cyborg e sua vida completamente tirada do filme, assim como a participação de um ator asiático e de pelo menos outros mais atores negros para incluir a participação de brancos.

O ator passou a denunciar o clima que acabou vivendo no set do filme depois que as pessoas passaram a voltar a sua atenção para a questão de vidas negras, por conta da morte de George Floyd, o que gerou protestos pelo mundo.

Liga da Justiça Snyder Cut vai estrear na HBO Max em 2021.

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