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Negros na dramaturgia: sobra estereótipo e falta representatividade

Tati Perry

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LOJA DC 4

Por Tatiana Perry e Pedro Maroni

Antes de mais nada, gostaríamos de deixar claro que a intenção dos autores do texto não é interferir na luta e nem roubar o protagonismo. Entendemos que, em questões como essa, poderíamos usar de nossa profissão, a de jornalistas, para promover debates sobre a questão, ação que se faz necessária haja vista a insistência de discursos racistas na atual polêmica que envolve o Oscar. Estamos abertos a críticas e sugestões. O texto foi originalmente publicado em dezembro na plataforma Medium, entretanto, com os últimos acontecimentos envolvendo a Academia, se torna mais atual do que nunca nesse momento.

Recentemente, a atriz Viola Davis fez um discurso histórico ao receber o prêmio de ‘Melhor Atriz em Drama’ no Emmy, o primeiro da categoria conquistado por uma mulher negra. Na sua fala, Viola ressaltou a importância de mulheres negras na indústria televisiva e cinematográfica. “A única coisa que diferencia as mulheres negras de qualquer outra é a oportunidade”, disse a atriz.

Sua fala diz respeito a um cenário muito evidente, mas ainda com poucas iniciativas para tentar revertê-lo: a quantidade de papeis negros na indústria de entretenimento. Por isso, fizemos uma análise do Oscar, a principal premiação cinematográfica do planeta e também da televisão brasileira. O resultado é chocante.

As mulheres e o Oscar

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Ao analisar a situação dos negros, principalmente das mulheres, é possível perceber uma enorme disparidade. Falando em mulheres, a diferença entre elas e as outras etnias é a mais gritante. Para se ter uma noção, analisamos a principal categoria feminina do Oscar, a de Melhor Atriz. De um total de 461 indicações desde 1929, ano da primeira cerimônia, só 10 mulheres negras foram indicadas na categoria. Apenas em 2001, 72 anos desde o primeiro Oscar, uma negra venceu. Foi Halle Berry por seu papel em ‘A Última Ceia’.

Foram necessários 25 anos até que uma mulher negra fosse indicada nessa categoria, quando, em 1954, a atriz Dorothy Dandrige recebeu a indicação por interpretar Carmen Jones no filme de mesmo nome.

A primeira artista negra a receber um Oscar foi Hattie McDaniel, em 1939, quando interpretou a escrava ‘Mammy’ em ‘… E o Vento Levou’, levando a estatueta de ‘Melhor Atriz Coadjuvante’. Apesar disso, a demora até que uma negra entrasse na principal categoria, a de ‘Melhor Atriz’, mostra o quão difícil foi até que elas recebessem o devido reconhecimento.

Outro ponto que chama atenção é o tipo do papel aos quais as mulheres indicadas receberam. Enquanto Hattie McDaniel interpretou uma escrava, ou seja, um papel que só poderia ser de uma negra, Halle Berry deu vida à Leticia Musgrove, uma mulher negra por quem um homem racista se apaixona. Se a história fala sobre a paixão de um racista por uma negra, fica claro que aquele papel era restrito à alguma atriz dessa etnia.

A situação se repete em outras indicações. Diana Ross, por exemplo, foi indicada em 1972 ao interpretar a cantora de jazz Billie Holiday em um filme autobiográfico da mesma. No mesmo ano, a atriz Cicely Tyson foi indicada por seu papel no filme ‘Sounder — Lágrimas de Esperança’, que narra a história de uma família de um gueto norte-americano. Em 1985, Whoopi Goldberg foi nomeada ‘Melhor Atriz’ por seu papel em ‘A Cor Púrpura’, produção que fala sobre a questão racial. As circunstâncias se repetem nas indicações de Angela Basset, em 1993, de Gabourey Sidibe, em 2009, Viola Davis, em 2011, e Quvenzhané Wallis, em 2012.

Os homens e o Oscar

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Embora os homens tenham um pouco mais de destaque na indústria cinematográfica norte-americana do que as mulheres, o caso de papeis restritos à etnia continua. Sidney Poitier foi o primeiro negro a ser indicado ao prêmio de ‘Melhor Ator’, em 1958. Cinco anos depois, ele foi o primeiro negro a vencer a categoria, por seu papel em ‘Uma Voz nas Sombras’. Novamente, nos vemos diante de uma interpretação que só poderia ser feita por um negro. No caso, Poitier deu vida a um trabalhador africano, que encontrou um grupo de freiras na Alemanha Oriental, que acreditam que ele foi enviado por Deus para lhes construir uma nova capela.

O próximo negro a aparecer na lista de indicações ao Oscar foi o ator James Earl Jones, por seu papel em ‘A Grande Esperança Branca’. O filme de 1970 retrata a história de um atleta — adivinhem — negro, que precisa enfrentar as constantes humilhações da imprensa e do público racista da época.

Nos anos seguintes, tivemos algumas outras indicações de atores negros, entre eles Morgan Freeman, em 1989, pelo filme “Conduzindo Miss Daisy”, onde ele interpretou motorista negro que precisou convencer sua patroa a romper os estereótipos impostos pela sociedade contra as pessoas negras. Depois, em 1994, Morgan também foi nomeado por seu papel no aclamado filme ‘Um Sonho de Liberdade’.

Mas foi apenas em 2001, 38 anos após Sidney Poitier vencer a categoria, que outro negro voltou a segurar a estatueta do Oscar. Denzel Washington, depois de ter sido nominado em 1992 e 1999, ganhou o prêmio de melhor ator por seu destaque no filme ‘Dia de Treinamento’. Milagrosamente, o personagem não necessariamente precisaria ser interpretado por um negro. Vale destacar que no mesmo ano, tivemos outro negro concorrendo na categoria. Will Smith foi indicado pela interpretação no filme ‘Ali’, em que interpretou o lendário lutador de boxe, Muhammad Ali.

Em 2004, voltamos ao padrão. Jamie Foxx venceu o prêmio pela interpretação de Ray Charles, no filme ‘Ray’, que só poderia ter sido retratado por um negro, uma vez que o cantor de R&B pertencia a essa etnia. O último negro a vencer a categoria de ‘Melhor Ator’ foi Forest Whitaker, por seu papel no filme ‘O último Rei da Escócia’, em 2006.

Nesses 86 anos de Oscar, a diferença numérica entre a indicação de negros e brancos na categoria de ‘Melhor Ator’ é gritante. Desde 1929, foram indicados 436 brancos e apenas 20 negros. No total, 84 vencedores brancos e 4 negros.

É como se todas essas atrizes e atores só fossem reconhecidos ao interpretar papeis restritos à sua própria etnia. São negros vivendo papeis que apenas eles poderiam viver. Em praticamente todos os filmes em que eles foram indicados, a cor da pele era condição necessária para dar vida ao papel.

Viola Davis ter ganho o Emmy foi um grande marco na dramaturgia porque seu papel em ‘How to Get Away with Murder’, uma advogada bem sucedida e professora de uma grande universidade, não é algo que diz respeito a apenas uma etnia específica e nem joga Viola em um estereótipo. Qualquer atriz, seja ela branca, parda, asiática ou latina, poderia dar vida à Professora Annalise Keating, mas a direção da série optou por uma atriz negra, atitude que ainda é rara quando o papel não trata diretamente de questões raciais ou guetos.

O BRASIL

Os número norte-americanos não são nada bons, mas levando em conta que, hoje em dia, a população afro-americana nos Estados Unidos representa 12,6% do geral, ao compararmos com o Brasil percebemos que a situação por aqui é ainda pior. Para mostrar esse quadro, analisamos os protagonistas das novelas das 9 da Rede Globo, horário de maior audiência da TV Brasileira e produção que a maioria dos atores almeja fazer parte.

Desde os anos 2000, tivemos 24 novelas nessa faixa de horário na Rede Globo. Destas, apenas duas foram protagonizadas por mulheres negras. São elas ‘Babilônia’, que teve Camila Pitanga como protagonista, e ‘Viver a Vida’, que contou com Taís Araújo no papel principal. A situação fica ainda mais séria quando analisamos o quadro étnico do Brasil, onde 50,7% da população se declara negra ou parda, ou seja, a maioria do Brasil não é branca, mas a enorme maioria dos papeis nas principais novelas do país é.

Foi apenas em 2004 a Rede Globo levou ao ar uma novela protagonizada por uma mulher dessa etnia. Foi ‘Da Cor do Pecado’, estrelada também por Taís Araújo. Taís, inclusive, foi a primeira mulher negra a ter o papel principal em uma novela brasileira, em 1996, com Xica da Silva, da TV Manchete.

Taís Araújo e Reynaldo Gianecchini em ‘Da Cor do Pecado’ Reprodução — Rede Globo©

Taís Araújo e Reynaldo Gianecchini em ‘Da Cor do Pecado’ Reprodução — Rede Globo©

Camila Pitanga também praticamente assumiu como uma das protagonistas da novela ‘Paraíso Tropical’, interpretando a prostituta Bebel, entretanto, seu protagonismo foi devido à comoção popular que o papel recebeu. Bebel conquistou o público e cresceu na novela, mas a real protagonista foi a atriz Alessandra Negrini.

A repetição dos nomes de Camila Pitanga e Taís Araújo evidencia a escassez de oportunidades que outras mulheres negras possuem de assumir os papeis principais em grandes produções. Além disso, a mesma questão que atinge a dramaturgia internacional, também atinge as produções brasileiras. Em ‘Babilônia’, o papel de Camila Pitanga era o de uma mulher moradora de uma favela carioca, lugar onde os negros são a evidente maioria. Já Taís Araújo, foi a principal atriz da novela ‘Da Cor do Pecado’. De nome polêmico, a produção também narrava a história de uma mulher negra e pobre, moradora de São Luís do Maranhão.

Os estereótipos

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Recentemente, a atriz Solange Couto participou da campanha “Senti na Pele”, que relata histórias de vítimas do racismo. Solange foi fotografada com um quadro mostrando números de sua carreira. De seus 37 papeis, 25 foram empregadas/escravas, 5 dançarinas e 7 sem estereótipos, o que constata a visão restrita que os dramaturgos brasileiros têm dos atores negros.

O quadro masculino nas novelas brasileiras é ainda pior. Embora a década de noventa tenha trazido personagens negros bem sucedidos, nenhum homem negro foi protagonista no horário nobre da Rede Globo. Depois de Zózimo Bulbul, que foi o primeiro a protagonizar uma novela brasileira, em 1969, na extinta TV Excelsior, mais nenhum outro homem negro assumiu o papel principal de uma novela de horário nobre.

Apesar disso, a teledramaturgia brasileira tem nomes que se destacam, como Lázaro Ramos. O ator, que conquistou o Brasil por seu personagem em ‘Cobras e Lagartos’, foi um dos poucos a protagonizar uma novela na Globo. Outro enredo em que Lázaro assumiu um papel importante foi em ‘Duas Caras’, em que viveu o personagem Evilásio, que era apaixonado pela rica e branca Júlia, interpretada por Débora Falabella. Na novela ‘Lado a Lado’, ele deu vida a Zé Maria, um negro revolucionário que liderou importantes movimentos libertários, como a Revolta da Chibatada. Atualmente, Lázaro Ramos protagoniza a série ‘Mister Brau’, junto com sua esposa, Taís Araújo.

Outro grande nome é o do ator Milton Gonçalves, que se destacou por papeis fortes. Presente em novelas como “Irmão Coragem”, ‘O Bem Amado’, ‘Gabriela’, ‘Roque Santeiro’ e tantas outras, Milton vai além da televisão, e conquistou o público no cinema brasileiro. Apenas por seu papel em ‘Rainha Diaba’, ganhou os quatro principais prêmios brasileiros de melhor ator: Air France, Troféu Candango, Coruja de Ouro e Governo do Estado. Mesmo assim, nunca protagonizou nenhuma novela.

Uma total quebra de estereótipos aconteceu na novela ‘Geração Brasil’. O ator Luís Miranda, interpretou a transgênero Dorothy Benson, que era mãe do guru pop Brian (Lázaro Ramos). Mesmo com 30 anos de carreira, Luís demorou para integrar o elenco de uma novela.

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Luís Miranda vivendo a transexual Dorothy Benson, acompanhada de Lázaro Ramos na pele de Brian, seu filho em ‘Geração Brasil’ Reprodução — Rede Globo©

“O ator negro tem pouco mercado. Ou é famoso e tem um papel legal ou está sempre fazendo papel do entregador de pizza. Os convites que tinham me feito antes eram muito ruins. Nunca tinha aparecido um bacana. Você pode ser bom ator em filme, mas a panela televisiva é muito difícil de penetrar”

Luís Miranda para o portal UOL

Esse panorama mostra que, no Brasil, apesar de sua maioria negra ou parda, são raros os papeis de destaque que essas etnias interpretam. A grande maioria diz respeito à pequenas interpretações de apoio, como empregadas domésticas e motoristas. Quando não isso, são papeis que falam sobre moradores de favelas ou subúrbios. É muito difícil encontrar uma atriz negra dando vida à uma grande médica ou um ator interpretando um empresário de sucesso. Não que seja errado ou inferior interpretar uma empregada doméstica. É uma profissão tão honrada quanto qualquer outra. A grande questão aqui abordada é a visão restrita que os diretores têm quanto aos negros e negras em cena.

O problema

O cenários descritos acima apontam para um problema muito mais abrangente, que é a questão trazida à tona pelo discurso de Viola Davis: A falta de oportunidade. A escassez de atores e atrizes de etnia negra interpretando papeis mais abrangentes mostra que a sociedade ainda enxerga o negro como um agente de segundo plano ou de um plano restrito a ele. Soa estranho quando um negro vive um advogado, mas é normal quando uma periferia é retratada com sua maioria branca, como acontece em grande parte das novelas brasileiras.

A visão que a sociedade tem dos negros em segundo plano, infelizmente, tem bases concretas, uma vez que os negros ainda compõe a maioria da margem social. Poucos são os negros médicos, engenheiros ou estudantes universitários, mas menos ainda são os papeis de médicos, engenheiros ou estudantes universitários exercidos por atores negros. Entretanto, nisso a dramaturgia pode ajudar, como a direção de ‘How to Get Away With Murder’ fez ao escalar Viola Davis para viver uma advogada de sucesso. É a ficção mostrando para nós, agentes da realidade, que é possível, que a capacidade e a determinação são as mesmas. Só falta oportunidade.

Matéria publicada originalmente no Medium 

Tati Perry
Futura jornalista que tenta trazer todos para o lado nerd da força.
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