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Resenha

Resenha | Deuses Americanos

Deuses antigos conflitam com os novos deuses pela crença da humanidade, aquilo que os materializa e lhes dá poder.

Rodrigo Roddick

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E se lhe dissessem que o ser humano tem o poder de construir realidade? E se lhe dissessem que você usa esse poder sem perceber? Crença, uma palavra pequena, mas que rege a vida de todas as pessoas. Toda a realidade é fruto de um conglomerado de crenças, tanto pautadas em raciocínios científicos quanto em teorias abstratas. Deuses Americanos procura retomar a vocês, leitores, o controle sobre esse poder.

O livro Deuses Americanos (American Gods), de Neil Gaiman, foi lançando pela primeira vez em 2001, tanto nos Reino Unido, país de nascimento do autor, pela Headline, quanto nos Estados Unidos, pela editora Willian Morrow. É vencedor de dois prêmios renomados nos EUA, o Hugo e o Nebula, ambos em 2002 e na categoria Melhor Romance. Já tendo conquistado o Bram Stoker em 2001 (EUA). Ele chegou ao Brasil em outubro de 2016 através da editora Intrínseca em uma edição expandida que é preferida pelo Gaiman. Você pode ler um trecho do livro clicando aqui.

Deuses Americanos foi adaptado para um série da Amazon Prime Vídeo e está disponível na plataforma. A série é mais conhecida com seu equivalente em inglês American Gods. Em 2018, a editora Intrínseca trouxe novamente o romance, mas em formato de novela gráfica, HQ, que conta a história dividida em mais de um fascículo.

Neil Richard MacKinnon Gaiman nasceu em 10 de novembro de 1960, em Portchester, um subúrbio no sul da Inglaterra. Ele aprendeu a ler com quatro anos e se considera um leitor voraz. Escolheu o jornalismo como profissão não por acaso, mas porque acreditava que formaria networking que o ajudaria em sua carreira profissional posteriormente. Seu início foi realizando entrevistas e escrevendo críticas literárias.

Sua obra mais famosa é Sandman, uma série de HQ sobre a figura antropomórfica do Sonho, Morpheus – uma alusão ao deus grego do sonho, mas apenas em nome. O personagem é único e cheio de peculiaridades complexas. A obra vai ganhar uma adaptação pela Netflix com a participação de Neil Gaiman.

Deuses Americanos se inicia com Shadow Moon, protagonista, sendo liberado da cadeia mais cedo porque sua mulher tinha acabado de morrer em um acidente de carro juntamente de seu melhor amigo Robbie. Sem rumo, o ex-presidiário decide voltar para casa, mas na viagem de avião conhece um estranho homem chamado Wednesday. Este se revela conhecedor de seus infortúnios e, por isso, lhe apresenta uma proposta de trabalho como guarda costas, o qual ele, a princípio, recusa.

Quando finalmente aceita, Shadow acompanha Wednesday em algumas cidades norte-americanas e juntos começam recrutar antigos deuses de diferentes mitologias para lutar contra os novos deuses: Mídia, Garoto Técnico, Os Intocáveis e Mr. World e seus agentes. Todos eles estão na terra antropomorficamente porque as pessoas creem neles. Os antigos deuses, de tão fracos que estão — porque não são mais cultuados — vivem como pessoas comuns, que trabalham para se sustentar, enquanto os novos deuses possuem o domínio do mundo, nos empregos de poder – mídia, governo, mercado financeiro, internet.

Enquanto a trama principal é narrada, surgem algumas histórias paralelas e anacrônicas que mostram como os deuses foram parar nos EUA.

Deuses Americanos é um livro que apresenta riquíssimas reflexões a respeito da crescente alienação humana de endeusar certos aspectos da modernidade, sem perceber que os construiu e ainda os constrói. Essa metafórica forma de tratar do assunto coloca sob a imagem de deuses certas potências contemporâneas, ao mesmo tempo que os confronta com os deuses antigos, provindos das mitologias de diferentes culturas. Apesar desse enfoque, Gaiman coloca como catalisador desse processo algo muito simples e intrínseco ao homem, seu maior poder: a crença.

Já no início da história, quando Shadow conhece Wednesday no avião, é abordado o processo de se acreditar em algo.

“— Eu perguntei: quem é você?

— Vejamos. Bom, considerando que hoje certamente é meu dia, que tal você me chamar de Wednesday? Senhor Wednesday. Se bem que, com esse tempo lá fora, bem podia ser Thursday, né?

— Qual seu nome de verdade?”

Ao indagar sobre a verdade, Shadow está se perguntando no que acreditar, ao mesmo tempo que é confrontado com elementos para o qual não está dando credibilidade. Mas este trecho tem um sentido de construção de verdade não apenas pela conduta do protagonista, mas também pela de Wednesday, que deixa claro que ele existe na realidade das pessoas há tempos. Para entender isso, porém, é necessário recorrer ao fim do livro, à nota do tradutor, onde se manifesta uma explicação acerca dos dois nomes da semana que é abordado no texto.

“Ao se apresentar a Shadow no avião, ele se anima ao constar que é quarta-feira porque, na língua inglesa, Wednesday significa ‘dia de Woden’, ou ‘dia de Odin’. Daí também o gracejo dele ao comentar o clima de tempestade dizendo que devia ser quinta-feira, ou Thursday, ‘dia de Thor”

Cheio de significados, Deuses Americanos abarca reflexões profundas sobre a conduta das pessoas no dia a dia como o costume de ficar horas diante da televisão idolatrando pessoas que são exatamente como elas; também discussões sobre o uso de armas de fogo (que é muito comum nos EUA); o fetichismo da vida online, metaforicamente abordado pela existência do Garoto Técnico; o incessante desejo por controle (Mr. World e seus capangas); e o dinheiro retratado como uma ilusão.  

Gillian Anderson é Mídia

Gaiman demonstra mais uma vez sua genialidade ao colocar os Intocáveis como as ondas invisíveis do mercado, que levam e molham todos ao redor, mas que não são visíveis a “olho nu”. Porém sua mais brilhante reflexão é quando ele sugere que tudo isso só é possível, tudo que existe e se agarrou ao real, porque proveio do exercício do homem em acreditar que o que se apresentou diante dele é, de fato, verdadeiro.

“Uma lança simboliza uma lança, e, neste mundo infeliz, o símbolo é a coisa em si”

Este poder é o tempo inteiro retratado nas páginas com o aparecimento dos deuses, que somente estão em carne e osso, ou seja, materializados, pelo poder da crença humana. O interessante dessa abordagem é que exprime o sentido de que o ser humano é capaz de construir qualquer coisa com sua crença, até mesmo realidade, portanto o entendimento do que é real hoje é repensado e ganha uma conotação de construção, algo moldado para ser assim. O livro traz um capítulo extra (que foi excluído de outras edições) no qual Shadow se encontra com Jesus e este lhe explica o que é ser deus, ou seja, como o poder da crença o materializa como um.

“— Já pensou no que significa ser um deus? — perguntou o homem. Ele tinha barba e usava boné — Significa abrir mão de sua existência mortal e se transformar em meme. Algo que vive para sempre na mente das pessoas, como a melodia de uma cantiga de ninar. Significa que todo mundo vai poder recriá-lo na própria cabeça. Você praticamente perde sua identidade. Em vez disso torna-se mil aspectos do que as pessoas precisam que você seja. E todo mundo quer algo diferente. Nada é fixo, nada é estável”

A partir dessa reflexão é possível ir mais além e chegar ao cerne da discussão, observando que as pessoas que acreditam nessas histórias e as encaram como realidade foram as mesmas que as criaram, portanto se entende que o ser humano consegue criar realidade a partir dos sentidos e da própria crença.

Quando ele acredita em algo, este algo torna-se real para ele, mas se cada pessoa compartilha dessa crença, cria-se uma rede em que todos estão a encarar este “algo” como verdadeiro, e ele se torna real no mundo. Portanto, a realidade nada mais é do que a materialização daquilo em que se acredita. O problema é que, exercendo o poder da crença desde seu surgimento, o ser humano é capaz de acreditar em qualquer coisa.

Shadow

É neste lugar que mora a observação da manipulação. Se uma pessoa nota este poder, como Wednesday, por exemplo, ela pode conduzir os acontecimentos para que a realidade tome forma da maneira que lhe apraz. Então se torna discutível a verdade inserida neste mundo real construído. E assim se chega na realidade que se vê hoje: poucas pessoas conduzindo a vida de muitos. As pessoas viram apenas gado, produtores de riquezas para estes “poucos”, uma vez que é pelo dinheiro, que elas se relacionam.

Enquanto isso, a vida é ignorada, o mundo enquanto espaço vivo também o é, e as pessoas permanecem a sustentar a fantasia de suas “vidas” cotidianas acreditando que estão vivendo, mas sem vivê-las de fato. Fantasia que beneficia e mantém os que detêm o poder, este construído pela confluência da crença de todos. Que é exatamente o objetivo do antagonista quando maquina uma guerra entre os velhos e novos deuses.

Mas a Shadow, depois que ele se sacrifica e vai para uma experiência pós-morte, é dado o poder da escolha em que mundo viver. “Que caminho você deseja seguir: os das verdades difíceis ou das belas mentiras?” Essa escolha não é apresentada apenas a ele, mas a todas as pessoas, pois quando Gaiman destina a pergunta ao personagem principal, está enviado a todos os leitores; lembrando que todos têm o poder da escolha. Shadow responde que prefere o caminho das “verdades”, pois já foi “longe demais para ter apenas mais mentiras”.

Cartaz da série Deuses Americanos pela Amazon Prime Vídeo

Ao fim de seu percurso pela dimensão que visita ao estar morto, Anúbis pesa seu coração em uma balança para ser confrontado com o peso de uma pena. O deus lhe diz que se a os dois se equilibrarem, ele pode escolher pra onde ir.

“Quero descansar. (…) É isso que eu quero. Não quero nada. Nem céu, nem inferno, nada. Só quero que acabe”

Cansado de “lutar batalhas que os outros escolheram”, Shadow manifesta, depois de compreender em sua jornada, o que é ser um deus, a sina do ser humano.

 “Acho que prefiro ser humano a ser um deus. A gente não precisa que ninguém acredite que existimos. A gente existe de qualquer jeito. É o que a gente faz”

Uma sincera resposta ante um mundo todo construído pela crença, onde não se sabe diferenciar o falso do verdadeiro.

Deuses Americanos é um compendium sobre a crença, uma bíblia para aqueles que querem ter o poder de decidir o que escolher, decidir o que vai ser real em seu mundo.

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Resenha | Guerras Secretas

Livro reúne X-men, Quarteto Fantástico, os Vingadores e os vilões em um mundo criado para eles se confrontarem.

Rodrigo Roddick

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E se você fosse transportado para um lugar em que seu maior desejo pudesse ser realizado? Só que para isso, você precisaria vencer seus concorrentes? É a partir deste cenário que nasceu Guerras Secretas. Apesar de o livro reunir distintos heróis Marvel, a premissa trabalha o conflito interno do ser humano.

“O Mundo de Batalha era feito de desejos”

Guerras Secretas é uma adaptação de um quadrinho homônimo escrito por Alex Irvine e publicado pela primeira vez em 1984. Ele ganhou a versão literária pela editora Novo Século em 2015, que já publicou diversas narrativas oriundas de histórias em quadrinhos.

O livro se inicia com diferentes heróis sendo transportados para o Mundo de Batalha, um planeta peculiar que ninguém conhecia. X-men, Quarteto Fantástico e os Vingadores, bem como os vilões Magneto, Ultron, Galactus e Doutor Destino precisam guerrear entre eles para atingir o maior prêmio que poderiam almejar: a realização de seu maior desejo.

A princípio, o leitor pode começar a questionar sobre o que um super-herói poderiam querer, se ele já possui poder, o que qualquer pessoa ordinária desejaria ter. Mas Alex Irvine brilhantemente se concentra nas limitações desses personagens, encontrando no poder delas o motivo de suas frustrações. Um exemplo é quando o Charles Xavier, que é paraplégico, começa a andar; outro é quando o Coisa passa a controlar sua transformação em pedra. Ou seja, mesmo sendo pessoas superpoderosas, elas também são humanas e, por isso, acabam tendo limitações e desejos.

Depois de estabelecer a premissa da narrativa, discretamente, por debaixo da trama, surge uma pergunta: o que você estaria disposto a fazer para realizar o seu desejo? E assim, a narrativa impele os leitores a uma análise íntima sobre suas limitações e escrúpulos, convidando-os às suas próprias guerras secretas.

Em um determinado momento, os personagens descobrem que existe uma entidade naquele mundo. Ele é chamado de Beyonder e é encarado como o ser que os levou para o Mundo de Batalha. Ao inseri-lo na história como uma entidade cósmica onipotente, Alex Irvine está metaforizando Deus. Essa provocação do autor propõe uma reflexão mais profunda.

“A verdadeira beleza reside no espírito e nas ações, na combinação da perfeição física com os atos divinos”

É possível observar isso no panorama: Beyonder leva os super-heróis àquele mundo, onde são incitados a digladiarem entre si para que o vencedor seja contemplado com a realização de seu desejo. Essa estrutura pressupõe então que seja esta a finalidade de Deus ao criar nosso universo: entreter-se.

“Ele nos colocou em guerra uns contra os outros para seu próprio divertimento”

E não por acaso, Irvine concentrou na postura do Doutor Destino o constante questionamento humano para com seu criador: ninguém deve controlar o próprio destino senão ele mesmo.

Saindo do campo teológico, Guerras Secretas também permite uma inferência social, questionando a atitude que coletivamente tomamos. É possível ver uma clara crítica ao sistema, que impõe ao ser humano — desde o momento que ele nasce — que ele se municie de ferramentas para realizar seu sonho. Porém, o prêmio é destinado a poucos, e isso gera um conflito de interesses, uma vez que todos querem realizar seus desejos, mas apenas os vencedores são contemplados com este benefício. Que vença o melhor!

Sintetizando este conflito de interesses na criação do Mundo de Batalha, o autor propõe ao leitor que ele é um indivíduo superpoderoso inserido em um mecanismo criado para sabotá-lo. Esse pensamento predispõe um jogo, portanto existe uma tentativa de fazer o interlocutor enxergar sua vida cotidiana como um jogo que ele não precisa jogar. Ao mesmo tempo, ele esclarece que o indivíduo tem o poder de criar qualquer realidade que desejar.

“No Mundo de Batalha, a realidade pode mudar”

Alex Irvine também se preocupou com o pensamento altruísta, geralmente remetidos aos heróis. Charles Xavier é o símbolo dessa ideia, propondo aos demais que eles não lutem, não façam aquilo que o Beyonder tanto incitou a fazê-los. Ele reflete que ninguém queria se levado para lá, então por que não se empenham e sair dali, em vez de jogar o joguinho daquela entidade?

Após essa elucidação, Guerras Secretas faz o leitor compreender que ele deveria usar o jogo a seu favor e não se tornar um escravo dele; que essa conduta faz parte da natureza humana.

“O animal humano é extremamente adaptável. Mesmo algo caótico e imprevisível como o Mundo de Batalha logo se torna navegável, uma vez que a inteligência humana tem a oportunidade de se aclimatar”

Guerras Secretas então acaba sendo um ensaio fictício sobre nosso próprio Mundo de Batalha.

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Resenha | Morte no Verão

Uma investigação sobre o lado oculto — escuro — do ser humano.

Rodrigo Roddick

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Noir sempre despertou curiosidade sobre o que as pessoas fazem quando estão no escuro. O que suas sombras contariam se pudessem falar? O gênero geralmente investiga esses critérios e tende levar a julgamento essas ações cometidas no escuro. Mas é uma narrativa que se repete. Morte no Verão tem elementos claros do gênero, apesar de não ser tão original quanto se espera.

Morte no Verão é um livro escrito por John Benville através do pseudônimo Benjamin Black — talvez escolhido para incitar o noir — e foi publicado pela editora Rocco em fevereiro. O autor é premiado, recebeu o Man Booker Prize com a obra O Mar e coleciona vários elogios de respeitados jornais internacionais na contracapa.

“As pessoas desaparecem quando morrem (…) Elas ainda estão ali, o corpo ainda está ali, mas e elas se foram”

A história gira em torno de Richard Jewell, um magnata que é encontrado morto segurando a arma do crime, uma espingarda. A hipótese preliminar é que fora suicídio, mas Quirke, o legista, indica que fora assassinato e então se inicia uma investigação para descobrir o autor do crime. Apesar desse ser o ímpeto inicial, o leitor vai descobrir que o romance se foca mais nas descobertas da vida particular da vítima que na acusação de um culpado.

A proposta superficial do livro é fazer o leitor descobri quem é o assassino, afinal é um romance policial. E isso se prova algo extremamente fácil. Quem lê ou assiste obras noir, ou quem pelo menos conhece o gênero, não vai encontrar dificuldade alguma em identificá-lo. Portanto o autor se concentra em rechear a narrativa com a vida obscura de Richard Jewell. E apesar de ser uma situação interessante, não é lá tão original.

O romance é muito bem escrito e apresenta alguns elementos nas falas dos personagens que convencem o leitor a lhes dar uma atenção especial, entretanto eles não possuem muita profundidade quanto esperado, nem mesmo os personagens do ciclo principal.

“Talvez ninguém jamais fique sinceramente triste quando alguém morre, apenas finja. Não dizem que não é pela pessoa que morre que nos lamentamos, mas por nós, porque vamos morrer também?”

O mais interessante, porém, é a vida particular da vítima. Até o final, Benville propõe uma discussão encontrada algumas vezes em outros livros: em alguns casos, o crime é justificável? Até que ponto um crime pode ser considerado errado? É uma reflexão delicada, afinal crime é crime, mas que enriquece bastante o ser humano e o coloca na busca de suas próprias opiniões sobre os “certos e errados” da vida.

Apesar de ser um bom representante do gênero, não espere de Morte no Verão um livro empolgante e intrigante. É uma narrativa lenta, que procura levar o leitor para dentro da época mais do que seduzi-lo com jogos inteligentes.

Com algumas tiradas inteligentes e favorecendo os elementos noir, Morte no Verão consegue ser uma leitura calma e tranquila, adequada para uma tarde de domingo — preferivelmente quente para se inserir no enredo.

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Resenha | 1984

O livro propõe uma ditadura através da resignificação da linguagem. Uma “razão” que destrói palavras.

Paulo H. S. Pirasol

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1984

A obra de George Orwell começa a ser escrita em 1947, é publicada em 1949 e lançada no Brasil em 2009 pela editora Companhia das Letras. 1984 apresenta uma distopia de um mundo dividido em três grandes potências padecendo de uma guerra sem fim.

capa 1984

Oceania, uma das potências, é o espaço físico do protagonista Winston Smith, funcionário do departamento de Registo do Ministério da Verdade. Com os seus questionamentos e relações sexuais discretos com Júlia, membro de Liga Juvenil Anti-Sexo, ele ameaça o controle do regime político totalitário: Socialismo Inglês ou Ingsoc regido pelo Grande Irmão.

O Partido possuí quatro ministérios que trabalham na manutenção do controle de submissão da população. Orwell é criativo quanto ao funcionamento dos ministérios e quanto às estratégias cobradas para o funcionamento do regime. No início, a montagem da história forma uma estrutura que se divide em conflitos do personagem no passado e no funcionamento do Partido. Durante o desenvolvimento da narrativa, esta divisão se transforma em um único argumento, resultado de uma sinapse do conflito entre o Amor e a Autoridade.

“A Décima Primeira Edição será definitiva – disse ele. – Estamos dando à língua a sua forma final – a forma que terá quando ninguém mais falar outra coisa. Quando tivermos terminado, gente como tu terá que aprendê-la de novo. Tenho a impressão de que imaginas que o nosso trabalho consiste principalmente em inventar novas palavras. Nada disso! Estamos é destruindo palavras – às dezenas, às centenas, todos os dias. A Décima Primeira Edição não conterá uma única palavra que possa se tornar obsoleta antes de 2050”

Entre as estratégias do Partido, se encontra a Novilíngua — a qual o trecho acima se refere — apresentando a ideia da formação de uma nova língua que busca a redução gradativa de palavras. Pois bem, o que há entre as palavras e as coisas para que tenha potencial nesta ideia? Existem algumas formas de pensar sobre as palavras, entre as mais comuns está o nominalismo que procede de uma ideia de que o universal não passa de um nome, uma convenção que damos. Já para os realistas, as coisas e os nomes possuíam uma analogia prática. Quanto mais universal fosse o termo gramatical, maior seria o seu grau de participação na perfeição original da ideia. Um substantivo que exige mais de uma ideia, apresentaria em si também a maior exigência daquilo e para o Partido este era o problema.

“É lindo, destruir palavras. Naturalmente, o maior desperdício é nos verbos e adjetivos, mas há centenas de substantivos que podem perfeitamente ser eliminados. Não apenas os sinônimos; antônimos também. Afinal de contas, que justificação existe para a existência de uma palavra que é apenas o contrário de outra? Cada palavra contém em si o contrário. “Bom”, por exemplo. Se temos a palavra “bom,” para que precisamos de “mau”? “Imbom” faz o mesmo efeito — e melhor, porque é exatamente oposta, enquanto que o mau não é. Ou ainda, se queres uma palavra mais forte para dizer “bom”, para que dispor de toda uma série de vagas e inúteis palavras como “excelente” e “esplêndido” etc. e tal? “Plusbom” corresponde à necessidade, ou “dupliplusbom” se queres algo ainda mais forte. Naturalmente, já usamos essas formas, mas na versão final da Novilíngua não haverá outras. No fim, todo o conceito de bondade e maldade será descrito por seis palavras — ou melhor, uma única. Não vês que beleza, Winston? Naturalmente, foi a ideia do Grande Irmão, — acrescentou, à guisa de conclusão”

De forma sútil, interessante e justificável, esta explicação é realizada no início da história para que possamos compreender os movimentos estratégicos do Partido, não por uma conduta crítica, mas pela perspectiva empolgante e positiva de uma ideia diabólica visando o retrocesso da Razão que se contrapõe ao dogmatismo do Grande Irmão. Entretanto, a necessidade deste novo idioma não se sustenta somente com o sucesso de romper a ligação do pensamento e o ser nas categorias lógica-linguísticas, mas principalmente para a criação de uma nova história. Outra presença fundamental é o Duplipensar.

“E se todos os outros aceitassem a mentira imposta pelo Partido – se todos os anais dissessem a mesma coisa – então a mentira se transformava em história, em verdade. “Quem controla o passado,” dizia o lema do Partido, “controla o futuro: quem controla o presente controla o passado.” E no entanto o passado, conquanto de natureza alterável, nunca fora alterado. O que agora era verdade era verdade do sempre ao sempre. Era bem simples. Bastava apenas uma série infinda de vitórias sobre a memória. “Controle da realidade”, chamava-se. Ou, em Novilíngua, “duplipensar.”

O duplipensar consiste em ter simultaneamente duas opiniões conflitantes e acreditar em ambas. Fazer com que a população exercesse essa prática foi o que tornou compreensível a conformidade do slogan: Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força.

Devido a essas alterações no conhecimento é que foi possível a aceitação deste slogan como verdade. Graças ao Ministério da Verdade, onde Winston trabalha, foram alterados fatos históricos em favor do Partido. Esta cautela de Orwell de apresentar maneiras compreensíveis e atemporais da realidade torna sua ficção plausível. Nos pontos mais surreais, o interesse não se mantém por uma série de conflitos — pois o conflito já é definido como único desde o início — mas sim por uma curiosidade na construção da submissão, por entrelaçá-la no contexto em forma de uma sátira perversa.

E essa perversidade está impregnada em todos os momentos. Não há fuga quando o lema do Grande Irmão presente em cartazes em todos os lugares é “Is Watching You”. Mesmo que ninguém tenha o presenciado alguma vez, eles o seguem como uma divindade que é onipotente e onipresente.

De que forma é possível confrontar um sistema ditador bem instituído? É essa pergunta que o livro procura refletir.

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