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Livros

FINALMENTE! A resenha do livro S. de J.J. Abrams e Doug Dorst

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O CDL agradece a Leon Idris Azevedo que de maneira totalmente ética e profissional nos ajudou para que o artigo viesse a ser feito para os leitores do CDL. Conheçam especificamente o seu canal no YouTube.

Imagine acordar hoje sem lembrar que existiu um dia anterior em sua vida. Nenhum nome a dar ao corpo que se move para fora da cama. Não saber quem são as pessoas nas fotos da mesinha de cabeceira. Nada resta em sua mente além de algumas palavras vazias de significado. Você ainda sabe falar, mas não sabe o que falar nem por que deveria fazê-lo.

Esse é o protagonista da primeira experiência do cineasta J.J. Abrams na literatura. O S. que temos em mãos é um invólucro para outro livro, intitulado O Navio de Teseu, um livro de biblioteca que foi lido e rabiscado por outros dois leitores muito antes de chegar em nossas mãos. Dentro ainda existem papéis, documentos e cartões postais trocados entre os leitores. Mas quem são esses leitores? Quem é o autor, um tal de V.M. Straka? E o protagonista sem memória, o que ele vai fazer em meio a isso tudo?

Quanto à identidade do autor, podemos nos juntar à investigação dos dois leitores das margens, Eric e Jennifer, e buscar pistas, resolver códigos numéricos e linguísticos. Enquanto nos perdemos nisso, todas as questões são orquestradas e respondidas secretamente por outras duas mentes ocultas, nomeadas apenas no selo que rompemos antes de abrir o livro. J.J. Abrams e Doug Dorst.

S.-JJ-Abrams

Em mais de uma entrevista, sempre ao lado de Dorst, Abrams expôs um medo que foi constante durante a produção deste livro: o risco de tudo parecer apenas um artifício, um truque do projeto gráfico a ofuscar o vazio de uma história possivelmente pouco interessante em segundo plano. Pois a ideia teve início assim, de modo artificioso, sem pretensões de significados maiores além de uma proposta gráfica inédita… e talvez promissora. O truque, portanto, dependeria de uma história que valesse a pena ser contada por meio desses artifícios; a dificuldade seria justificar o projeto gráfico. Abrams não teve pressa, levou mais de uma década para descobrir o caminho.

Tudo teve início em 1998, quando ele encontrou no aeroporto de Los Angeles um livro abandonado (The Cry of the Halidon, de Robert Ludlum), com uma anotação no interior:

Quem quer que encontre isso, por favor leia e deixe em algum lugar para outra pessoa encontrar.

Isso bastou para despertar em Abrams uma ideia que alterava a concepção do que entendemos ser um livro – uma comunicação entre autor e leitor. Em uma entrevista a CBS em 2013, ele disse que naquele momento conseguiu ver o livro como “uma embarcação de comunicação entre dois leitores”. Essa alteração da posição tradicional da leitura parece, por si só, um ponto de partida de enorme potencial, mas qual seria a essência do livro lido por essas duas pessoas? É aqui que, em fevereiro de 2009, entra Doug Dorst, autor de Alive in Necropolis (ainda sem tradução para o português).

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                                                               Aqui todos os itens que vem dentro do livro

Segundo o próprio J.J. Abrams, foi Dorst o responsável pela escrita do livro inteiro, com eventuais reuniões sobre o que estava sendo produzido aqui e acolá, o que de modo algum é uma novidade para Abrams. O cineasta que muitos aprenderam a idolatrar, criador das séries Alias, LOST e Fringe e responsável por revitalizar Star Trek e Star Wars, tem acumulado resultados brilhantes na arte de dividir a produção das histórias que conta. Sua constante é a imagem final, que parte de uma premissa de mistério – de se valorizar mais a pergunta do que uma resposta. Mas todas suas melhores produções compartilham também de uma sábia colaboração na escrita de roteiro. Embora tenha entrado em Hollywood, no início dos anos 90, ao assinar sozinho (ainda como Jeffrey Abrams) os roteiros de Eternamente Jovem, com Mel Gibson, e Uma Segunda Chance, com Harrison Ford, Abrams encontrou maior sucesso ao dividir a escrita de projetos como Armageddon e sua primeira série, Felicity. Foi durante essas produções que conheceu os frutos da escrita colaborativa com Adam Horowitz, quem depois foi levado à equipe de LOST – geralmente creditada, e criticada, apenas como produto da mente de Abrams. Vale lembrar que a série sobre os sobreviventes do voo 815 na ilha misteriosa teve a influência direta de Abrams apenas na primeira temporada, quando Damon Lindelof tomou o leme e se encarregou de guiar a escrita até o fim. Abrams não participou da segunda temporada pois se comprometeu a dirigir Missão Impossível III, com Roberto Orci e Alex Kurtzman – dois roteiristas que ele depois levou a Star Trek (Damon Lindelof também foi chamado ao time para o roteiro da continuação, Star Trek Into Darkness).

O que essa teia de nomes e colaborações recorrentes revelam é que o sucesso de Abrams está, acima de tudo, em colocar-se na posição de maestro. As melhores histórias que ele nos conta, como é o caso de Star Wars: O Despertar da Força, são projetos cuja premissa e direção final carregam sua visão, mas cuja identidade se dissipa em outras mentes. Não por acaso, esse é o valor maior de S., que reflete sua colaboração na própria narrativa: a autoria é inescrutável.

O mistério maior de S., à primeira vista, nos parece ser sobre a identidade de V.M. Straka, o autor fictício criado por Abrams e Dorst, mas a característica essencial desse mistério esbarra em qualquer identidade que se deseje encontrar, como a do protagonista ou do próprio leitor, que aqui, ao lado de Eric e Jennifer, não tem o direito de existir livre para ser um só.

O título O Navio de Teseu, por sua vez, faz referência direta ao paradoxo proposto pelo historiador e filósofo grego Plutarco, que problematizou o costume de reformas da embarcação que teria levado Teseu até Creta, onde venceu o Minotauro. Plutarco conta que a embarcação foi preservada pelos atenienses por quase mil anos e propôs o desafio de explicarmos quando é que alguma coisa perde sua essência, quando é que deixa de ser o que a consideramos ser. Ao longo do suposto milênio, o navio usado por Teseu teve de passar por inúmeras reformas, sempre perdendo suas partes originais e sendo reconstruído com partes novas. Então, pergunta-se, ao se substituir a última parte constituinte do navio original, ele deixaria de ser O navio de Teseu?

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                                                                    Objetos do que vem dentro do livro

Esse é um problema que nos inspira – e que naturalmente inspira S. – a questionar nosso próprio ato de autoria sobre as palavras que usamos para definir o que definimos. Algo é o que é à medida em que o nomeamos? A identidade do navio, das coisas e até de nós mesmos, existe à parte de nossas invenções? Para se responder, positiva ou negativamente, a esse paradoxo essencialista é necessário um ato de renúncia ou de aceitação. Devemos renunciar à capacidade de as palavras investigarem mistérios de uma realidade que elas próprias mal refletem, ou então aceitar que a realidade é tão inventada quanto o significado das palavras.

Quer saber mais sobre S. e o Navio de Teseu? Preparei uma resenha em vídeo no meu canal no YouTube:

 CURIOSIDADE

Escrevi esse texto no dia seguinte à morte de Umberto Eco, professor de todos nós amantes dos mistérios que nascem do uso das letras. Ainda em março deste ano devemos receber um livro póstumo seu, Pape Satan Aleppe, a ser publicado pela editora a que Eco se juntou pouco antes de falecer. O nome dela? La Nave di Teseo.

Se eu soubesse dessa curiosidade e da triste notícia antes de fazer o vídeo acima, teria acrescentado o lembrete de que Eco era, entre nossos contemporâneos, o semiólogo mais determinado a construir sobre as bases de Saussure (citado no vídeo) e Peirce, a unir supostas diferenças e a ampliar o estudo sobre os símbolos. Portanto, que esse vídeo sirva também como uma homenagem à área do saber que Eco tanto amava. E como um convite. Ao nosso constante retorno à linguística e aos avanços que a escrita de Eco nos trouxe.

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Livros

Editora Aleph convida leitores a fazerem doações em prol do Pantanal

Em troca doadores ganharão wallpaper + e-book de “Os despossuídos”.

Mylla Martins de Lima

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No dia 9 de Outubro (sexta), a editora Aleph, conhecida por seus livros com foco em clássicos da ficção científica, divulgou em uma de suas redes sociais a campanha para combater as queimadas no Pantanal.

Por meio do seu perfil no Instagram (@editoraaleph), a editora lançou uma nota incentivando seus leitores a colaborarem com algumas instituições, citando como exemplo a Comitiva Esperança, ICAS Instituto de Conservação de Animais Silvestres e a WWF Brasil. Apesar dos nomes mencionados, outras entidades que atuam na região também são válidas.

Como forma de agradecimento, os colaboradores podem enviar o comprovante da ajuda e receber gratuitamente o e-book de Os despossuídos ,além de um wallpaper com a ilustração de Marcela Cantuária, artista plástica responsável por produzir as capas dos livros de Ursula K. Le Guin. Basta enviar a foto do comprovante para o e-mail [email protected] .

Mais que receber algo em troca, que tal ajudar o planeta?

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HQs

Resenha | Nimona

O verdadeiro significado do ditado: “As aparências enganam”.

Mylla Martins de Lima

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A HQ Nimona foi lançada em 2016 pela editora Intrínseca e tem como autora Noelle Stevenson, uma ilustradora e quadrinista incrível!

Nimona é uma menina, as vezes raposa, tubarão, gato e até dragão em alguma parte do seu tempo. Na verdade Nimona é uma metamorfa muito enérgica, que consegue o tão sonhado cargo de comparsa do pior vilão que já existiu no mundo, o Ballister Coração-Negro.

O inesperado começa quando a garota, em sua primeira missão, descobre que seu chefe e ídolo não é tão malvado assim. Enquanto ela sugere acabar com o arqui-inimigo e ex-amigo do vilão, Sir Ambrosius Ouropelvis, matando ele e a quem estiver tentando protegê-lo, Ballister prefere a tradicional luta de espadas, sem sangue e sem morte.

A história começa quando a dupla descobre que a Instituição de Heroísmo & Manutenção da Ordem, empresa que em tese serviria para controlar o caos, planeja prejudicar a população e incriminá-los. Como será a reação do povo quando Coração-Negro levar essa informação à mídia?

Trata-se de uma publicação divertidíssima, ambientada na idade média mas utilizando de elementos futurísticos, mais presente na tecnologia. Os personagens carregam muitas histórias passadas e são muito bem trabalhados, do visual à personalidade. Várias páginas arrancam sorrisos e até mesmo gargalhadas, principalmente quando os quadros pertencem à menina e Ballister.

A trama é cheia de dramas também, e que não passam despercebidos nem com as cenas de humor ácido da personagem principal. O ritmo da narrativa é bem rápido, mas muito fluido e, mesmo com suas 275 páginas, Nimona é uma leitura simples, fácil e que pode ser lida em um único dia. E é impossível não ler!

Noelle sabe prender o seu leitor e isso não é nenhuma surpresa. Esta HQ lhe rendeu o Eisner Awards e a levou para a final do National Book Award. Além disso, a quadrinista garantiu o Slate Cartoonist Studio Prize de Melhor Web Comic e foi indicada ao Harvey Award. Que currículo!

Nimona é uma ótima leitura pós ressaca literária, é a melhor opção para quem ama fantasia e quer fugir dos clicês de heróis. É um misto de fofura, ação, risadas e lágrimas.

A história de uma menina, um vilão que não é vilão e um herói que não é herói.

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Livros

Ordem Vermelha: Filhos da Degradação

Um livro sobre luta pela liberdade de uma sociedade oprimida.

Gustavo Carvalho Cardoso

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Ordem Vermelha foi publicado em 7 de dezembro de 2017 pela editora Intrínseca. O livro foi escrito por Felipe Castilho, autor de Serpentário, O Legado Folclórico e também indicado ao Prêmio Jabuti pelo quadrinho Savana de Pedra. Esse é o início de um universo compartilhado do Omelete, que irá contar com HQs, livros e animações.

O livro conta a história de quatro heróis que lutam pela liberdade de uma sociedade cercada de corrupção, presa eternamente pelos grilhões de uma deusa corrompida pelo poder e tomada pela ira daqueles que pecaram milênios atrás. Ligados pelo destino e pelo sentimento de inconformidade da normalidade com que seus povos aceitaram servir calados, como escravos, eles unirão forças para colocar em prática um plano ousado que mudará o mundo.

” As seis faces da deusa Una observam você aonde quer que vá. ”

Esse volume é recheado de momentos épicos, com passagens que nos fazem repensar sobre a vida real. É um universo totalmente novo, com suas próprias peculiaridades, referências, sistema econômico, religião e costumes. Repleto de raças, algumas já vistas em outros lugares da literatura porém, retratados de forma diferente aqui.

A história aborda a degradação social comandada autoritariamente por uma deusa corrompida pelo erro de seu povo no passado. Com um apelo religioso muito forte, o livro coloca em jogo nossa ideia de fé e o quanto ela pode ser deturpada pelo poder daqueles que usam-na como forma de escravidão global.

Utilizando-se de temas pesados como racismo, prostituição e abuso, o livro mostra até que ponto as pessoas podem chegar quando são escravizadas e tratadas como gado para abate, além de como essa mesma sociedade com um mínimo de poder pode ser adulterada, ficando pior do que aqueles que a explorou.

A luta pela independência é muito bem retratada e contextualizada, claramente apresentada pela personagem Yanisha e sua esposa Raazi, que batalham para serem livres desse trabalho escravo e servidão contínua. Sua raça consegue mudar a cor de seus corpos como um camaleão, e as mulheres de seu povo são usadas como mercadoria para os prazeres carnais daqueles que pagarem mais. A perseverança das duas não está ligada apenas a elas, mas sim à emancipação de todas as mulheres que dão suas vidas e corpos para adquirirem uma semiliberdade, e por todos que morrem em busca desse sonho tão distante.

Ordem Vermelha é o inicio de um universo com potencial expansivo imenso, cheio de laços e caminhos para serem abordados, com mitologias e histórias cativantes. É um ótimo livro nacional, e para aqueles que buscam uma história diferente e bastante complexa, é uma ótima pedida.

É uma leitura bem rápida com uma escrita que prende facilmente, e a cada página queremos saber mais sobre o destino de cada personagem além de torcermos pelo sucesso de sua luta.

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