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Livros

Resenha – Mitologia Nórdica

Neil Gaiman reconta os mitos escandinavos desde a origem dos nove mundos até o Ragnarök.

Rodrigo Roddick

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Mitos são o início do fundamento científico sobre a observação da natureza pelo homem. Era o método utilizado pelas civilizações antigas para tentar responder a grandes questões: “quem criou o universo?”, “qual o sentido da vida?”“existem seres maiores que nós?”. A mitologia então nasceu como modelo para nortear a vida das pessoas e acabou se tornando uma marca cultural de grandes civilizações e povoados. 

Em Mitologia Nórdica encontramos as histórias que configuram e caracterizam a cultura escandinava.

O livro foi lançado pela Intrínseca em 2017 e ganhou uma edição de luxo no ano passado (2018) pela mesma editora. Ele traz um apanhado de mitos dos Eddas – coletâneas de textos que versa sobre a história dos deuses e heróis nórdicos – reunidos e recontados por ninguém menos que Neil Gaiman.

Este autor, muito em alta hoje em dia pelo seriado Deuses Americanos (2018, Amazon Prime), possui uma vasta obra que abrange desde livros e roteiros de Novelas Gráficas a filmes e séries, recebendo por elas inúmeros prêmios. Para citar alguns deles, temos o Hugo (2016), o World Fantasy Fiction (1991) e o Eisner Award for Best Writer (1992, 93 e 94). Neil Gaiman é mundialmente conhecido por sua obra mais famosa Sandman (1989), trabalho em que o público já consegue perceber o quão ele é apaixonado pela mitologia escandinava.

Já que estamos falando do autor, é possível começar a analisar Mitologia Nórdica através de sua escrita. Muitos leitores concordam que as palavras de Gaiman são minuciosamente selecionadas, pois elas chegam até o interlocutor de maneira clara, objetiva e precisa. Além disso, ele consegue estabelecer uma delicadeza mesmo na descrição de cenas agressivas e também consegue conferir sabor às palavras que imprime em suas páginas. Um talento raro e delicioso de experimentar enquanto se lê. O livro possui uma linguagem bem simples, mas ao mesmo tempo, muito profunda.

Apesar de ser uma coletânea de contos já criados e compartilhados ao longo de gerações, Neil Gaiman faz um brilhante trabalho em resumir e recontar estes mitos de maneira primorosa, realizando ao mesmo tempo um recorte muito preciso com o intuito de narrar a mitologia escandinava desde seu início – a origem do mundo – até seu fim – o Ragnarök. 

Diagramação de Mitologia Nórdica com detalhes da cultura escandinava

Os contos funcionam como ilustrações, episódios, de um mesmo universo mitológico e vão tecendo a história, sintetizada e completa, dos deuses Aesir e Vanir. Explicam como foi a origem e quais são os nove mundos, bem como suas características; quais foram as aventuras e peripécias dos deuses e no que elas resultaram; e termina contando os meandros do apocalipse. Gaiman, através das histórias, explora o panteão escandinavo, mas destaca já no início do livro a importância de três deuses: Odin, Thor e Loki.

O motivo disso é a representatividade triangular também encontrada na mitologia celta (povo indo-europeu). Os três deuses formam os pilares estruturais dos mitos nórdicos. Odin é o mais sábio de todos os deuses e conhecedor de artes ocultas, além de ser considerado o pai de todos os homens e deuses, sendo assim classificado como Pai de Todos. Ele representa a sabedoria. Thor é o mais forte e poderoso, logo representa o poder. E Loki é o mais ardiloso e inteligente dentre eles, significando o caos, mas não pejorativamente como um princípio destrutivo, e sim como uma cadeia de eventos imprevisíveis que resultam em algo novo. Este sentido está bem expandido e exemplificado por Neil Gaiman, pois ele coloca Loki como o precursor de situações embaraçosas e, às vezes, perigosas, mas que acabaram beneficiando os deuses. O leitor vai descobrir que muitos elementos importantes desta cultura mítica foram motivados por Loki.

Ele é o personagem que entrelaça todos os contos e que também conclui a mitologia nórdica.

Através do antropomorfismo, Neil Gaiman desenha um modelo construtor de metáforas, ensinando leitores menos experientes a compreendê-las e a fazer uma análise profunda do texto: enxergar além das palavras, ler o conteúdo que não é visto. Esse é o prêmio que o interlocutor ganha ao se banquetear com os deuses em Mitologia Nórdica.

Um livro gostoso de ler, com uma profundidade exponencial e que conta com uma edição muito bem produzida e adornada por símbolos nórdicos. Para completar, a capa acompanha a dureza e beleza do famoso e poderoso martelo de Thor, o Mjölnir

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Resenha

Resenha | Mistborn – O Império Final

Primeiro livro da saga evoca críticas contra o sistema ditatorial e o escravismo.

Rodrigo Roddick

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A escravidão é um tema muito recorrente dentro da fantasia porque sempre suscita questões acerca dos sistemas ditatoriais. Mistborn é uma série que leva a questão para o mundo da magia: se o que faz pessoas escravizarem outras é o poder, em um mundo fantástico, quem possui magia é ditador? O Império Final vem levantar essa e outras discussões.

Mistborn – O Império Final é o primeiro livro da série dividida em duas eras, sendo este volume correspondente a primeira. Ele foi escrito por Brandon Sanderson e lançado no Brasil pela editora LeYa em 2014. Sanderson ainda escreveu o livro Elantris pela mesma editora, a série Coração de Aço pela Aleph e o livro Skyward pela Planeta.

Infelizmente, a LeYa comunicou na semana passada que os livros do autor deixarão a casa devido à baixa vendagem nos últimos anos.

O Império Final não é apenas o começo de uma série, ele narra uma história em padrão teleológico (início, meio e fim). Neste primeiro volume, Kelsier, um homem nascido das brumas (quem possui habilidades mágicas relacionadas à queima de metais), encontra outra pessoa com esta mesma característica. Ensinando-a a usar seus poderes ao mesmo tempo que reúne aliados para sua causa, Kelsier dá início ao seu plano de derrotar o Senhor Soberano, o ditador daquela terra.

À primeira vista, o epílogo já dá a premissa que abarca a narrativa inteira. O leitor é apresentado a Kelsier, um atrevido ladrão que derrota um dos senhores de terra que faz parte do sistema ditatorial governado pelo Senhor Soberano. Já no início, Sanderson faz uma crítica ao comportamento dos marginalizados, que sempre estão receosos, afugentados, conformados ou até mesmo apáticos com a realidade que vivem.

“Não tinham queixa. Não tinham esperança. Mal ousavam pensar. Era assim que deviam ser, pois eram skaa. Eram…”

Kelsier livra os cidadãos do domínio desse senhor na tentativa de fazê-los se mexerem e buscarem a própria liberdade. Essa motivação do protagonista já indica sua meta de libertar as pessoas da escravidão, porém com a participação delas.

O autor brilhantemente imprime essa crítica para mostrar com clareza que nenhuma mudança real virá se não for pelas mãos dos oprimidos. Apesar do Senhor Soberano deter um poder mágico, Kelsier mostra que ele não é invencível e, como qualquer um, depende de recursos para manter seu império. É assim que ele vai desmistificando os medos do povo, lembrando-os que são eles o verdadeiro poder do imperador.

“Quando se lê, pode-se aprender muito, sabe?”

A ideia da escravidão está até na própria palavra “skaa”, que define os oprimidos. Ela sugere um sentido fonético para a palavra em português “escravo”. Não se pode afirmar com certeza se Sanderson pensou nisso, pois a palavra para escravo em inglês é “slave”. Entretanto pode ser que ele tenha desenvolvido essa ideia, afinal J. K. Rowling foi uma autora que fez muitos trocadilhos com verbetes em português em Harry Potter.

A reunião de vários setores, incluindo pessoas que também são como Kelsier, revela o pensamento político por trás da luta contra a ditadura. O protagonista não apenas pensa em derrotar o sistema, mas envolve a crise das classes sociais em seu esquema para garantir uma determinação coletiva que enfrente quaisquer tentativas de surgimento de um novo ditador.

“Manipulação está no âmago das nossas interações sociais”

Kelsier

O personagem Senhor Soberano é outro detalhe muito acertado em Mistborn. Durante a narrativa, alguns capítulos trazem as impressões dele antes dele se transformar no ditador temido que governa o império. Essa situação cria uma dúvida no leitor a respeito da transição de caráter dele; dúvida que é respondida brilhantemente pela trama. O autor relembra ao leitor que, em muitas vezes, a aparência de um governante ao público nem sempre corresponde à sua identidade real. Essa reflexão se aplica facilmente aos políticos.

“Até mesmo a blasfêmia o honra. Quando amaldiçoa usando o nome dessa criatura, você o reconhece como seu deus”

Outro ponto interessante do livro é um olhar mais delicado sobre as religiões. Ao criar os feruquemistas — pessoas que conseguem armazenar força, juventude e conhecimento em adereços metálicos — Sanderson faz um desfile de religiões de seu próprio universo. No meio dessas dissertações, ele imprime outra crítica sobre a ditadura, desta vez, mental. Assim o autor revela que quando uma religião é imposta a outra pessoa, ela está sendo escravizada mentalmente por quem a impôs. O mais justo é deixá-la escolher aquela que melhor lhe convier, que lhe faça sentido.

“A crença certa é como uma boa capa, penso eu. Se lhe servir bem, a manterá aquecida e segura. Se lhe cair mal, no entanto, pode sufocar”

A despeito das críticas e pensamentos sociais que o livro traz, Brandon Sanderson também foi um hábil escultor de histórias, no sentido do entretenimento mesmo, quando inventou um novo método de execução de magias.

Em Mistborn, as pessoas que possuem essas habilidades conseguem queimar metais em seu corpo e usar a combustão para realizar um determinador poder, como flutuar, prever o futuro próximo, aumentar a força e outros. Os que possuem essa característica, conseguem queimar apenas um tipo de metal, o que lhes dá apenas um tipo de poder. Mas os nascidos das brumas conseguem queimar todos.

Dessa forma, a magia dentro da história instiga o leitor a investigar sobre seu funcionamento e limitações, porém o mais interessante é que ela não resolve a trama, apenas contribui para que certos desafios sejam vencidos. O que é um ponto bastante positivo em livros fantásticos, que o diferencia, pois muitas literaturas semelhantes recorrem à magia para solucionar todos os impasses, o que fica chato.

Todavia o sentido mais interessante que se encontra na história é sobre a sanidade. Kelsier é interpretado o tempo inteiro como um louco visionário que sonha com coisas impossíveis. Brandon Sanderson não criou essa situação levianamente. Ele usou este artifício para discutir a alienação do cidadão. Ao colocar a sobriedade em um personagem apontado como louco, ele critica como a visão das pessoas está tão deturpada a ponto de considerar loucura aquilo que, na verdade, elas também almejam. Desse modo ele brinca com a superestimada “sanidade” que todo “cidadão-modelo” se orgulha de possuir.

“Pessoas sãs estão dormindo quando as brumas saem”

E por falar em alienação, Sanderson faz uma observação rápida sobre o elemento que comunica todos os setores do sistema: o dinheiro.

“Mas, o que é dinheiro? Uma representação física do conceito abstrato do esforço”

Mistborn – O Império Final é um livro que possui suas excentricidades, mas jamais esquece o real interesse de quem lê: o ser humano. Uma característica recorrente nas narrativas de Sanderson.

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HQs

Resenha | Coragem

HQ que apresenta a importância de estar com a saúde mental em dia.

Mylla Martins de Lima

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Raina Telgemeier é uma cartunista norte-americana responsável por um grande acervo de livros para o público infanto-juvenil. Coragem não é diferente. A editora Intrínseca trouxe sua autobiografia para o Brasil em uma edição linda e bem colorida.

HQ Coragem: uma história para quem tem medo - Geekness

Em uma noite, Raina acordou com uma dor estranha na barriga, mas como sua mãe havia passado pela mesma coisa, talvez não fosse nada grave… apenas uma virose. O problema é que a dor não passava e, junto dela, vinha o medo. Depois de diversos exames terem dado “OK”, seus pais perceberam que não se tratava de uma doença física e, por isso, procuraram ajuda psicológica.

A HQ foca no público que mais precisa desse apoio, quem está passando pela aterrorizante fase da puberdade. Ela normaliza o medo, mas estimula os jovens a não passarem por esse caminho turbulento sozinhos e a confiarem em seus responsáveis, que farão o possível para ajudar.

Essa transição inevitável pode vir acompanhada de ansiedade e, se não tratada com devida seriedade, é possível que algo mais complexo aconteça, chegando a afetar seu estado físico. A autora manda um recado para jovens e adultos usando sua própria experiência, por isso uma leitura em família seria incrível.

Coragem, de Raina Telgemeier #Resenha - Leitora Compulsiva

A ideia de trabalhar a identidade da personagem também foi ótima. Raina era uma menininha de 10 anos, feliz, que amava assistir TV e desenhar como qualquer uma de suas amigas da escola. Isso faz com que o leitor entenda que o problema não tem a ver com estereótipos.

A palavra estresse não é de uso exclusivo dos adultos. Lidar com um ambiente conturbado, seja em casa ou na escola, além de mudanças corporais e mentais, são desgastantes para todos. Essa grafic novel pedagógica apresenta esse argumento de forma muito clara para que até os mais leigos no assunto compreendam que não se trata de um problema desprezível.

Coragem fala especificamente sobre emetofobia, o medo de vômito, mas o quadrinho serve como exemplo para muitos outros tipos de sofrimentos causados pela ansiedade, que é considerado atualmente um dos transtornos mais comuns.

A prova da importância de Coragem é sua indicação ao Prêmio Eisner 2020, a maior premiação quando o assunto é histórias em quadrinho. A HQ está concorrendo às categorias de Melhor Roteirista e Artista e Melhor Publicação Infantil.

Ler é Bom, Vai! Coragem, de Raina Telgemeier

O quadrinho é cheio de lições para a família toda. Trata de um assunto sério, mas é uma leitura divertida e muito didática. Raina encoraja qualquer pessoa a abrir seu coração e pedir ajuda, e seu depoimento no final do livro é muito sincero e acolhedor.

Coragem é mais que desenhos coloridos com traços infantis, é um arauto de como enfrentar seus medos, seja ele qual for.

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HQs

Anunciado spin-off de O Mandaloriano em livros e quadrinhos

Estão por vir novas aventuras do Mandaloriano no universo de Star Wars.

Jacqueline Cristina

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Anunciado essa semana pela Disney e a Lucasfilm uma linha editorial que irá expandir o universo Star Wars introduzido na primeira temporada da série, O Mandaloriano.

A linha editorial incluirá livros de ficção e não-ficção, bem como uma séries de quadrinhos de vários editores, que terão como alvo diferentes faixas etárias e níveis de leitura. A capa do livro “The Art of the Mandalorian (Season One)” (A Arte do Mandaloriano – Primeira Temporada), criado por Doug Chiang, da Lucasfilm, foi revelada como parte do anúncio, o qual pode ser vista abaixo:

A Arte do Mandaloriano – Primeira Temporada encabeça uma lista de lançamentos que também inclui um romance adulto, e três livros para jovens leitores. Confira a lista de títulos e autores:

  • A Arte do Mandaloriano (Primeira Temporada), de Phil Szostak com Doug Chiang;
  • O Mandaloriano: Romance Original, de Adam Christopher;
  • O Mandaloriano: O Guia Visual Definitivo, de Pablo Hidalgo;
  • O Mandaloriano: Aliados e Inimigos, por Brooke Vitale;
  • O Mandaloriano: Livro de Histórias (Título definitivo ainda será revelado), por Brooke Vitale;
  • O Mandaloriano, por Joe Schreiber.

Quanto aos quadrinhos, as publicações fcarão a cargo da Marvel Comics e da IDW Publishing, sendo que não foi apresentado mais detalhes a respeito, contudo, sabemos que se O Mandaloriano seguir o padrão estabelecido pelos quadrinhos anteriores de Star Wars, a Marvel publicará títulos para leitores mais velhos, enquanto a IDW publica quadrinhos para o público mais jovem.

Foram confirmadas também outras publicações envolvendo a confecção de revistas de colorir e de atividades da Titan, Studio Fun, Crayola, Thunder Bay Press, Disney Publishing Worldwide e Dreamtivity, assim como um Pequeno Livro de Ouro e um Screen Comic que irá recontar a primeira temporada da série.

Infelizmente, até o momento não foi divulgado nenhuma pista quanto ao lançamento dos títulos citados na matéria. Enquanto isso, O Mandaloriano, série televisiva do universo Star Wars, já se encontra disponível para os assinantes do serviço de streaming Disney+.

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