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Resenha

Resenha: “Os Gigantes da Montanha”

Obra de arte inacabada pelas mãos de Luigi Pirandello e imortalizada pelo Grupo Galpão é impressa pela editora Nemo.

Rodrigo Roddick

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Em algum momento na vida, alguns artistas já devem ter reservado um tempo para pensar que a arte poderia ser uma coisa viva, uma pessoa ou talvez uma entidade fantasmagórica que embala indivíduos mais sensíveis… Pensar nessas coisas parece produto de uma mente febril, mas Os Gigantes da Montanha vai revelar que é tudo verdade. A arte, meus caros, é viva.

“E é preciso que acreditem em você para que acredite em si mesmo?” 

Luigi Pirandello

Os Gigantes da Montanha é uma adaptação de uma peça homônima escrita pelo dramaturgo italiano Luigi Pirandello, que morreu antes de finalizar sua obra. Esta história ganhou cores impressas pela editora Nemo em abril como uma forma de imortalizar um trabalho que, por si só, carrega a vida eterna em sua essência. Embora a Nemo tenha conjurado magia ao colocar arte em papel, o projeto teve participação de outras empresas de diferentes setores como o Grupo Fiat, Faculdade Melies, Fundação Torino Escola Internacional e, é claro, o Grupo Galpão.

A peça foi encenada pelo Grupo Galpão, uma das companhias de teatro mais importantes do cenário brasileiro desde 1982. Com sede em Minas Gerais, o grupo formado por 12 membros está ligado à tradição do teatro popular e de rua, característica que é bem marcada em suas encenações.

Dirigido por Gabriel Villela, Os Gigantes da Montanha conta com a atuação de Inês Peixoto como Condessa Ilse – a atriz também foi responsável por idealizar a roteirizar os quadrinhos – Eduardo Moreira como Mago Cotrone e Arildo Barros como Conde. Abaixo, o elenco completo.

Elenco

  • Beto Franco – Duccio Doccia / Anjo Cento e Um
  • Luiz Rocha (ator convidado) – Quaquèo
  • Regina Souza (atriz convidada) – Diamante / Madalena
  • Antonio Edson – Cromo
  • Arildo de Barros – Conde
  • Eduardo Moreira – Cotrone
  • Inês Peixoto – Condessa Ilse
  • Júlio Maciel – Spizzi / Soldado
  • Lydia Del Picchia – Mara-Mara
  • Paulo André – Batalha
  • Simone Ordones – Sgriccia
  • Teuda Bara / Fernanda Vianna – Sonâmbula

A história se assemelha um pouco às origens do Galpão, revelando a precariedade de um grupo teatral itinerante que é “convidado” a encenar a peça “A Fábula do Filho Trocado”, escrita por um poeta – já morto – para que o grupo fictício encenasse outrora. Eles chegam à vila do Mago Cotrone, o líder dos fantasmas que lá residem, que, ao observarem a aproximação do grupo, se intimidam e tentam afastá-los, sem saber que o Mago os esperava. 

Cotrone, encantado pela “Fabula do Filho Trocado”, tenta a todo custo fazer o grupo encenar a peça, mas a Condessa Ilse – que desde o primeiro momento revela ter grande importância – recusa. Eles então são convidados a descansar na vila, onde descobrem que seus sonhos são mais verdadeiros que eles mesmos.

Já na premissa introdutória da HQ, o livro avisa ao leitor que a peça possui muitas interpretações, e talvez por isso seja tão rica, mas fica um tanto evidente o sincretismo entre os atores e os personagens, a arte e a magia, o palco e a imaginação. O enredo é como um grande simulacro fantástico da concepção final de uma obra cênica: o invisível que é visto.

É um pouco difícil de explicar a essência da história porque ela conflui dois sentidos em paralelo. Ao mesmo tempo que ela trata dos problemas encontrados pelos grupos artísticos que não recebem subsídios públicos ou privados para se manterem – ou seja, existem apenas da deferência da plateia –, também desenha a importância de sua existência. 

Os artistas sofrem um dilema confuso: tocam a maior riqueza indispensável à alma humana, mas como estes conceitos são algo sem forma, não conseguem materializá-los de maneira palpável para o público, que então ignora a necessidade de existir arte. E quando a necessidade não é vista – neste mundo social e inorgânico que construímos para nós e chamamos de vida – as pessoas simplesmente ignoram ou banalizam. E não é assim que a arte é vista pelo mundo?

Os Gigantes da Montanha busca recuperara a glória da arte, o motivo dela existir; e mais do que isso, visa enobrecer uma potência humana que é jogada de lado justamente porque confere ao indivíduo poder sobre si mesmo. Algo que um sistema social como o nosso jamais permitiria.

Nesta dramaturgia em forma de quadrinhos, o leitor vai se deparar com personagens vivos e mortos, ao mesmo tempo que vai descobrir que os mortos estão mais vivos que os “viventes”. É uma brincadeira dançante com personas que assumem a grandeza de um conceito. Isso é visto na Condessa Ilse, por exemplo, que pode ser interpretada como “A Alma do Artista”. E, na verdade, quando o leitor começa a entender esse paralelo de arte com alma é que ele começa a realmente escutar a história.

“Estar aqui é como estar nas bordas da vida. A um comando as bordas se separam, entra o invisível, propagam-se os fantasmas”

Os personagens – de modo geral, não os desta história em específico – são como fantasmas que assombram o imaginário do poeta – colocados em Os Gigantes da Montanha como o criador principal da arte – e que só conseguem ser materializados, ou seja, se tornar visíveis, ao serem encenados por atores. Tratando desse modo, os artistas seriam como médiuns que, a partir de seus corpos, tornam vivos seres que nunca existiram. O tempo todo durante a narração é dito que eles são donos de tudo e do nada.

O paralelismo da obra e sua profundidade artística conseguem transgredir a forma peça – encenada – através desta HQ. É inacreditável que, a todo momento, o interlocutor consegue “assistir” à peça ao apenas lê-la – tal como Mago Cotrone faz com “A Fábula do Filho Trocado”. O êxtase que a obra atinge termina no paladar do leitor com um gosto sublime ao mesmo tempo que triste. É agridoce, mas ao mesmo tempo, perfeito.

E os gigantes, onde entram na história? Eles aparecem bem no final – que jamais foi escrito, apenas sugerido ao filho de Pirandello – revelando o que são. Se você leu até aqui já pode imaginar que o sentido atribuído a eles também é metafórico. Os gigantes são as grandes organizações frias que destroçam o valor da vida – e da arte – em detrimento do capital.

Os Gigantes da Montanha é uma obra de arte, classificação que supera qualquer nota, qualquer definição ou qualquer tentativa humana de compreender apenas racionalmente – limitar – algo tão inefável como a arte.

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Resenha | O Enigma de Outro Mundo

Novela investiga a existência de extraterrestres entre nós e prospecta teorias sobre a existência humana.

Rodrigo Roddick

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Existe vida fora da terra? Se sim, é amistosa ou hostil? Essas perguntas já foram feitas diversas vezes em diferentes momentos históricos. Muitas pessoas acreditam em alienígenas. Inclusive há uma ciência dedicada a desvendar os mistérios além da Terra. Há teorias que até apontam que os antigos egípcios foram visitados por seres extraterrestres. Contribuindo para este tema, O Enigma de Outro Mundo ainda suscita outra questão: já não estariam os aliens entre nós?

Apesar desta interrogação já ter se desenhada na cabeça de muitas pessoas, o livro apresenta a tentativa humana de identificar os extraterrestres, presumindo que eles consigam se passar por um humano, assim se camuflando entre nós.

O Enigma de Outro Mundo é uma história criada por John W. Campbell que inspirou o filme homônimo em 1982 e várias outras obras cinematográficas com nomes diferentes. Agora a obra foi traduzida e impressa pela primeira vez através da editora Diário Macabro. O excelente projeto gráfico é evidente logo na capa dura, com ilustração bem feita e ótima organização. A diagramação não deixa a desejar.

O livro possui 164 páginas e conta a história de um grupo de pesquisadores na Antártica que se depara com uma cabeça alienígena enterrada no gelo. Ela possui a capacidade de se transformar em qualquer ser vivo. A volume ainda traz extras contendo curiosidades sobre o contexto do romance, bem como algumas ilustrações dos personagens da história.

A narrativa apresenta uma investigação científica sobre o reconhecimento de espécimes extraterrestres. Por esse motivo, a linguagem dele é técnica, ainda mais porque os personagens principais são físicos, biólogos e meteorologistas. 

Apesar de ser um pouco arrastada as partes em que eles estão conversando sobre os métodos que deveriam ou não adotar para investigar A Coisa (como é chamada a cabeça alienígena na história), é possível compreender a escolha de Campbell. A maneira científica que o livro é narrado ambientaliza o leitor, construindo uma atmosfera coerente e paralela à realidade. Há momentos, inclusive, que você acaba se convencendo que toda a história seria possível.

A despeito do tema inicial, O Enigma de Outro Mundo pretende ir muito mais fundo do que superficialmente demonstra. Ao trazer a questão sobre a dificuldade de identificar quem é alien ou não – já que os extraterrestres podem se multiplicar e se transformar em qualquer um – Campbell, na verdade, está propondo uma investigação do próprio ser humano.

O que faz de nós humanos?

Esta é a pergunta principal que várias teorias tentaram responder. Mesmo sem uma resposta absoluta, o livro nos convida a viajar para dentro de nós mesmo e nos questionarmos sobre a humanidade que nos caracteriza. Em uma das partes mais interessantes da história, o autor chega a caracterizar as células alienígenas como “egoístas” por possuir o princípio de se preservar a qualquer custo. Não seria isso muito parecido com nosso instinto de sobrevivência?

O Enigma de Outro Mundo é uma fonte de teorias. E seu fim propõe que nós, seres humanos, poderíamos ter sido uma raça desenvolvida por vidas extraterrestres. Se isso é verdade ou não, não sabemos, mas é válido para subsidiar argumentações. Afinal, especular sobre vida fora da Terra pode ser a resposta para nossa existência.

“Para além das estrelas, está a resposta. De um lugar além das estrelas, de um planeta mais quente que circula ao redor de um sol mais brilhante e mais azul, eles vieram”

O Enigma de Outro Mundo é um livro curtinho obrigatório a todos os interessados em ETs e aos fãs de ficção-científica.

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Resenha | Wild Cards – O Começo

Contos fazem alusão aos X-men e à Liga da Justiça, bem como outros super-heróis.

Gustavo Carvalho Cardoso

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Wild Cards – O Começo foi lançado em 23 de novembro de 2010 pela Companhia das Letras e organizado por George R.R. Martin em parceria com inúmeros autores. O autor é um roteirista e escritor de ficção-científica, terror e fantasia. Sua maior criação foi a fantasia época “As Crônicas de Gelo e Fogo”.

“Jetboy é o grande herói da nação.”

A história de Wild Cards gira em torno de um ataque com um vírus biológico alienígena que altera o DNA dos afetados, transformando-os em super-heróis, os chamados Áses. Mas o vírus pode transformar em aberrações antropomórficas, os Curingas.

”Tachyon parecia um homem normal, um homem normal que saiu de uma nave alienígena”

O livro se compromete em mostrar os dramas de um Estados Unidos pós Segunda Guerra Mundial, em um universo onde a vida no espaço é existente e carrega consigo uma ameaça à nossa sobrevivência: um teste viral que promete dizimar os humanos dois anos após Hitler ser derrotado.

A história lembra muito um roteiro de histórias em quadrinhos, parodiando super-heróis conhecidos e criando uma lógica por trás de cada poder apresentado, tornando o universo apresentado mais tangível e consolidando a premissa inicial do livro.

O livro é fragmentado em contos contendo narrativas e personagens principais diferentes, fazendo o leitor percorrer cenários e situações distintas. Ele mostra os humanos se adaptando aos poderes e aprendendo a lidar consigo mesmos, abrindo portas a uma nova crise. Como conviver com seres que podem praticamente serem deuses?

É apenas uma das perguntas que o livro traz e uma das crises que gira em torno dos personagens. Trazendo referências diretas aos X-men, à Liga da Justiça e a muitos outros quadrinhos, a narrativa coloca uma curiosidade em cada página e os leitores ficam loucos para saber qual vai ser o próximo personagem a ser central na história.

Assim como em X-men, a ameaça presente nesse universo não só os Áses ou os Curingas, mas sim os próprios humanos com medo dos afetados pelo vírus. Munidos de preconceito e de misoginia, eles se sobrepõe aos Wild Cards, aplicando leis rígidas e praticamente escravizando aqueles que sofreram com a mutação. Estes sendo obrigados a servir no exército sob o pretexto de estarem honrando a nação. A verdade, porém, é que estão sendo presos por baixo dos panos.

A crítica social que o livro propõe casou muito bem com a premissa do livro, assim como as muitas referências aos universos conhecidos dos quadrinhos. A política na história foi empregada de forma impecável como uma real vilã aos interesses dos personagens. Em muitos trechos, as leis mais descriminam e matam do que auxiliam aqueles que já estão sendo caçados diariamente.

O drama e a motivação de cada personagem afetam de forma ativa o mundo à sua volta, de forma que um conto, mesmo que com relatos distintos dos outros, complementa o universo, consolidando as lendas que ali permeiam.

A única coisa que quebra um pouco o ritmo do livro são algumas poucas histórias que se arrastam sem necessidade, demorando muito para expor o personagem. Porém, não afeta em nada a qualidade da obra, vai de leitor para leitor.

Wild Cards possui um drama bastante solidificado e uma trama política baseada na da vida real, é uma obra que fortifica o cenário de heróis e vilões. É quase uma distopia alegórica.

O livro é indicado para aqueles que são fãs de quadrinhos e gostariam de ver uma história um pouco mais realista.

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Livros

Resenha | Deslocamento – Um diário de viagem

Um best-seller sobre o medo da velhice e seu descaso.

Mylla Martins de Lima

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A quadrinista novaiorquina Lucy Knisley presenteou a todos com essa HQ linda publicada pela editora NEMO, selo da editora Autêntica, em 2017.

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Trata-se de uma autobiografia ilustrada sobre uma viagem que Lucy fez junto à seus avós. Esses planejam uma viagem de navio, o que deixa seus filhos muito preocupados por ambos estarem na casa dos 90 e muito debilitados. Lucy, com seus 27 anos, mostra interesse em acompanhá-los no intuito de fortalecer laços com o casal e, possivelmente, tirar uma boa história dessa aventura.

Já no primeiro dia da viagem, Lucy descobre a fragilidade da vida no fim da terceira idade, quando seu avô, antes aviador e soldado na segunda guerra, aparece com dificuldades como incontinência e restrição na locomoção, enquanto sua avó não a reconhece. Os dois idosos precisam constantemente de sua ajuda mesmo durante as atividade mais simples, como tomar seus remédios ou escolher seu almoço.

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Quando mais jovem, Allen, seu avô, escreveu um livro de relatos sobre sua vida na guerra e o mesmo presenteou sua neta com um exemplar. O carinho pelo livro é tão forte que, dentro da história, algumas lembranças de seu avô também são ilustradas à medida que Lucy o lê. A menina faz de tudo para tornar a viagem especial, mesmo que ela tenha que se desdobrar para fazê-los aproveitar o máximo.

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Longe de ser um livro pesado, Deslocamento é emotivo por sua sensibilidade. Ele oscila entre a atmosfera triste da velhice e a onda tropical caribenha. É nessa explosão de descobertas que Lucy acaba desvendando a si mesma além de ter maior entendimento sobre assuntos relacionados à família, à idade e à morte.

A autora-personagem aborda questões pertinentes além das relacionadas a Allen e Phyllis, como formação acadêmica, expectativas, generosidade e até egocentrismo. Tudo isso colabora para o crescimento pessoal de Lucy durante os 10 dias em auto mar.

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Sem se prender a quadros, a autora opta por formas mais livres com letreramentos inventivos, o que garante mais fluidez ao texto. Com ilustrações coloridas, garante menos melancolia nas parte sentimentais. É impossível que seu público não saia de coração quentinho pós o término do quadrinho.

A relação do ser humano com o envelhecimento sempre foi deixada em segundo plano e Deslocamento vem para mostrar a gravidade desse tipo de pensamento.

Saber lidar com a terceira idade é importantíssimo, um tema como esse deve ser lido por todos.

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